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Lançada em 4 de janeiro de 1875, A Provincia de São Paulo, que 15 anos depois, quando foi proclamada a República, passaria a se chamar O Estado de S. Paulo, era propriedade de uma associação commanditaria, com typographia e escriptorio na Rua de Palácio, onde os redactores Americo de Campos e F. Rangel Pestana franqueavam suas columnas ao escriptos de utilidade publica sob responsabilidade do auctor. As assignaturas eram pagas por anno ou por semestre. Como se vê pelo cabeçalho, o jornal obedecia às regras da Orthographia ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Língua Portuguesa. Publicada por João de Moraes Madureira Feijó, em 1734, era um compêndio que vigorou até o começo do século 20. De acordo com suas normas, não obrigatórias, as palavras eram escritas com base na etimologia, de origem grega e latina. Não havia até então nenhum acerto entre Portugal, Brasil e outros países de língua portuguesa para unificar e simplificar o idioma. A Academia de Ciências de Lisboa (ACL) e a Academia Brasileira de Letras (ABL) ensaiaram reformas, em iniciativas isoladas, que acabaram não indo adiante. Os portugueses ignoraram o Projeto de Reforma da ABL em 1907 e os brasileiros não tomaram conhecimento da Reforma Ortográfica de Portugal, de 1911. As colônias de Lisboa, na África e na Ásia, onde se estudava e se falava o português, não foram consultadas. Como territórios de além-mar, denominação usada pela metrópole, também ficaram de fora em 1931, quando – aí sim – acadêmicos portugueses e brasileiros aprovaram o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro. Nesse meio tempo, houve tentativas individuais e muita polêmica entre os membros da ABL que lutavam por uma nova ortografia.”Fálase muinto en ortografia fonetika; mas en ke se rezume ela? Na ekuasão du son i da grafia: ora, tal ekuasão não eziste, nunca ezistirá con un alfabetu ke, kual u ke erdamus dus latinus, é au mesmu tempu defisiente e superabundante…”, escreveu Carlos de Laet, ironizando o projeto apresentado em 1907 por Medeiros e Albuquerque. Na década de 1920, o escritor e acadêmico Mario de Andrade idealizou sua Gramatiquinha e passou os anos seguintes coletando material para escrevê-la com independência lingüística. Inspirava-se no nacionalismo do Movimento Modernista de 1922. O jornal O Estado de S. Paulo continuou a escrever como se nada ou muito pouco tivesse mudado, porque as regras acertadas não foram adiante. O presidente Getúlio Vargas revogou na Constituição de 1934 o acordo firmado três anos antes. Um exemplo: “Foi promptamente dominada a sublevação tentada hontem pela madrugada em dois quarteis do Rio de Janeiro” – era esta a manchete que anunciou na primeira página de 28 de novembro de 1935 o fracasso da intentona comunista. Palavras como Pariz, inglez, commercio, telegramma, commissão, assumptos, anniversarios mantinham a grafia antiga. Diante da irritação de intelectuais com a revogação do acordo, as regras aprovadas em 1931 acabaram sendo homologadas em 1938, mas só foram implantadas em 1941. Era o período da 2ª Guerra. O jornal, que em 1º de setembro de 1939 noticiou “ataques allemaes à Polonia” e o bombardeio de “cidades polonezas”, manteve a ortografia antiga até 1º de junho de 1941. Nessa data, um domingo, a primeira página ainda grafava assignaturas, anno, director, hontem, accôrdo, apparelhos e aviação alleman. Dois dias depois, 3 de junho, o Estado escreveu assinatura, ano, diretor, ontem e alemão com a grafia do acordo.CONFUSÃOO empresário, escritor, bibliófilo e acadêmico José Mindlin, que nos anos 1930 foi repórter e redator do Estado, lembra os problemas causados pelas mudanças na língua. “Reformas ortográficas têm sido tradicionalmente fontes de confusão. A gente acaba se adaptando, mas, se me perguntarem qual delas estou seguindo, terei dificuldade para responder”, disse Mindlin. Como escreve à mão e passa os textos para uma secretária digitar, ele não se preocupa com as novidades. “Vou demorar a me habituar quando o Acordo Ortográfico começar a vigorar em janeiro, mas a questão dos acentos, tremas e hífens o revisor resolve.”A escritora e também acadêmica Lygia Fagundes Telles não gostou das mudanças, que acompanhou à distância, deixando as complicações nas mãos de especialistas como seu colega Evanildo Bechara, responsável na ABL pela aplicação do Acordo. “Escrevo meus livros à mão e confio os originais ao revisor de minha editora”, contou. “A gente sofre no começo, mas tem de se adaptar, porque a reforma é uma coisa feita independentemente da vontade”, observa outro acadêmico, o jornalista, teatrólogo e crítico de teatro Sábato Magaldi, que também escreveu no Estado e no Jornal da Tarde. Apesar de terem permanecido grafias duplas entre Brasil e Portugal, o acordo de 1931 simplificou bastante a escrita. Alguns exemplos são as palavras fruto (em vez de fructo), sinal (signal), sábado (sabbado), tesouro (thesouro) idade (edade), igreja (egreja), máquina (machina), filosofia (philosofia), manhã (manhan) e química (chimica). Antes mesmo de o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro ter sido homologado, a Academia Brasileira de Letras (1933) e a Academia de Ciências de Lisboa (1940) publicaram um Vocabulário Ortográfico para aplicação das novas regras. Como ainda havia divergências, os acadêmicos tentaram, mais uma vez sem chegar a um consenso, aprovar um novo acordo. O então ministro da Educação, Gustavo Capanema, fez um discurso na ABL em 1942 e exortou os acadêmicos a acatar o vocabulário ortográfico português, acrescentando à lei os brasileirismos e regionalismos da língua falada no Brasil. As primeiras edições do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, que mais tarde lançaria o Novo Dicionário Aurélio, apresentam um estudo do autor sobre as diferenças e um longo texto com as Instruções para a Organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovadas em agosto de 1943 pela ABL. Esforços e boas intenções à parte, a confusão continuava. Brasil e Portugal insistiram na negociação de um novo acordo. O governo brasileiro aprovou, por decreto, as mudanças propostas pela Conferência Inter-Acadêmica de Lisboa para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, em 1945, mas voltou atrás em 1955. O Congresso não ratificou o acordo. No mesmo ano, começaram os estudos para a reforma que levaria ao Acordo Ortográfico de 1990, que entrará em vigor em 1º de janeiro. ACENTOSAntes disso, uma reforma parcial, proposta pela ABL e aprovada por decreto pelo presidente Emílio Garrastazu Médici em dezembro de 1971, deu um passo adiante para a simplificação da língua. Caiu o acento circunflexo das palavras homógrafas e os das palavras terminadas em mente, como êle/ele; sêde/sede; êste/este; sòmente/somente; cafèzinho/cafezinho. Continuavam, no entanto, outros desafios incômodos, como a questão dos tremas e dos hífens, por exemplo. Uma proposta das academias do Brasil e Portugal, de 1975, não foi aprovada e o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1986, não passou de um conjunto de intenções para unificar a ortografia. O escritor e jornalista Ivan Ângelo, que aprendeu a ler com a ortografia de 1943 e enfrentou as mudanças de 1971, quando era secretário de Redação do Jornal da Tarde, prevê dificuldades de adaptação, mas acolhe com simpatia as regras do último acordo. “Nossa língua já não escreve elephante com ph nem môça com circunflexo, mas ainda é cheia de acentos e sinais que podem ser banidos”, disse o escritor. Antes de conferir as novidades, ele imagina a satisfação de um conhecido de nome Wanderkleyson, que vai recuperar, de uma penada, as letras w, k e y, reincorporadas ao alfabeto. “Será que minha sogra, que se chama Benvinda, terá de mudar a grafia?”, diverte-se Ivan Ângelo, conferindo as regras do hífen, que continuam complicadas. Pelo Acordo Ortográfico de 1990, o hífen será mantido nas palavras compostas iniciadas pelas formas além, aquém, recém, bem e sem. Como nome próprio, porém, Benvinda continuará sendo grafado com n e sem hífen O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara, que coordenou os estudos na ABL para aplicação do acordo, lançou um manual – A Nova Ortografia – e um guia – O Que Muda com o Novo Acordo Ortográfico – com a apresentação das mudanças na língua. Além do texto do Acordo Ortográfico de 1990, ele faz um histórico dos acordos tentados por Brasil e Portugal, no século passado. Bechara elogia a iniciativa do Grupo Estado de aplicar, já a partir de janeiro, as novas regras. “A adoção da nova grafia por um jornal como O Estado de S. Paulo ajudará o leitor a fixar, pela memória visual, a escrever com acerto”, observou o acadêmico.

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