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Especialista destaca que combate ao racismo começa pelo entendimento de sua construção

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:”O racismo no Brasil não é nada brando. Ele se concretiza no número de jovens negros que são mortos todos os dias. É um genocídio.”

Em termos biológicos, o racismo não existe. Mas, muito concretamente, pode-se colocar o assassinato de mais de 20 mil jovens negros, a cada ano, na conta do preconceito e da discriminação racial que ainda são bem vivos em nosso país.

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Esse número significa que, a cada 23 minutos, um negro com idade entre 15 e 29 anos é morto no Brasil. De acordo com o Mapa da Violência divulgado pelo Ministério da Saúde, o número de assassinato de pessoas negras é  2,6 vezes maior do que o de pessoas brancas.

Com dados como esses, Murilo Mangabeira desenvolveu palestra na sede do Serpro, na última segunda-feira, 21, em referência ao dia da Consciência Negra. Professor de Sociologia, Mangabeira é graduado em Ciências Sociais e Diretor responsável pelas políticas de diversidade étnico-raciais da Subsecretaria de Igualdade Racial do Distrito Federal.

Confira abaixo alguns dos principais conceitos apresentados pelo especialista.

O que é racismo?

A cada 23 minutos, um jovem negro, com idade entre 15 e 29  anos, é assassinado no Brasil

Racismo é uma organização da sociedade que produz desigualdade entre raças e etnias. Racismo não é um fenômeno individual; não se resume a uma ou a algumas pessoas que têm pensamentos retrógrados, que ignoram o que sabemos da diversidade. É mais que isso. Para compreendê-lo, é preciso olhar para a sociedade. Trabalhar em conjunto e ter noção de que raça é um conceito que existe socialmente, e não biologicamente.

Se não existem raças humanas, por que usar o termo racismo?

Quando se fala em raça, não se está retroagindo ao pensamento dos séculos XVII ou XIX. Em termos biológicos, de fato não existe raça. Mas as pessoas agem em relação a outras pessoas tendo por base a ideia de que uma etnia é superior à outra. Portanto, raça é algo que existe socialmente, é um conceito construído no imaginário social. Por isso é correto usar essa palavra.

Qual a diferença entre preconceito e discriminação racial?

Preconceito, como bem diz a palavra, é uma ideia preconcebida, anterior ao conhecimento de uma realidade. É a ideia que a gente tem quando pensar conhecer algo que, de fato, não conhece.  Já a discriminação é a ação, é o agir em relação a outras pessoas baseado no preconceito. O racismo é baseado no preconceito e na discriminação. E existe ainda outra ideia importante, a do racismo institucional, que é o racismo operado pelas instituições.

Por que é tão difícil desconstruir o racismo?

Estrutura do quadro social mudou pouco em 388 anos

Dos 516 anos de Estado brasileiro, 388 anos foram vividos com escravidão. Mais de metade da nossa história foi baseada na não consideração da humanidade de alguns grupos populacionais. Pessoas que não eram consideradas… pessoas. Se alguém, ainda hoje, se espanta com a existência de discriminação racial, é preciso refazer esse caminho histórico. Não chegamos até aqui do nada.

Por exemplo, da África até aqui, a travessia das pessoas negras era feita em condições tão ruins, de forma tão cruel, que só uma pequena porcentagem conseguia chegar viva. Essa violência se estruturou desde o físico até o socioeconômico. E o desnível socioeconômico perdura até hoje. Isso pode ser constatado quando se observa com alguma atenção uma  imagem como essa, que é do período colonial. (Tela de Jean Baptiste Debret: Um jantar brasileiro, 1827)

Com pouca imaginação você pode atualizar esse quadro, que estruturalmente ainda se repete em nossa sociedade: a família de classe média branca faz a refeição na sala de jantar, enquanto seus servidores, negros, ficam responsáveis por todo o serviço. Até a presença de filhos de uma pessoa que seja empregada doméstica, que leva as crianças ao trabalho por não ter onde deixá-las; até isso ainda se repete em nossa sociedade. A estrutura, o fato de pouquíssimas pessoas negras estarem nos cargos de poder, continua presente. Uma realidade dura para os homens negros, e ainda mais dura para as mulheres negras.

O ‘que tem a ver’ falar de racismo nas empresas?

O racismo é uma coisa que se insere em todas as esferas sociais, inclusive nas instituições. Racismo institucional não quer dizer que uma instituição diz assim “vamos discriminar pessoas negras”.  Mas significa que, como as instituições fazem parte da sociedade, os resultados dos serviços que ela presta, sua rotina de trabalho, o que ela produz pode gerar, no final das contas, mais desigualdade étnica e racial. Portanto, para eu poder combater esse racismo institucional, preciso ficar atento não só ao serviço que ela presta, mas também a como ele é planejado, concebido, realizado, avaliado.

Essa não é uma questão restrita ao RH, à gestão de pessoas. Tem que estar na estratégia das organizações. Envolve fazer diagnóstico de seus quadros, para descobrir, primeiro, qual é a situação real. Saber quantos são os negros e negras, além de pessoas indígenas e de outra etnias.  E, a partir desse diagnóstico, operar políticas de equidade, para que todas as pessoas tenham, de fato, acesso aos direitos que lhe são devidos.

A questão indígena no Distrito Federal e outros assuntos

Durante a apresentação no Serpro, Murilo Mangabeira relacionou  racismo com a questão indígena. Apresentou, também, exemplos concretos da realidade dessa população que mora no Distrito Federal, onde o profissional atua.  Foram feitas intersecções relativas a gênero e diversidade, além de apresentada uma dinâmica didática chamada “Caminhada da Desigualdade”.

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