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Derrotada pelos aliados em 1918, a Alemanha, após o armistício de 11 de novembro, entrou na fase mais difícil de sua história. Como conseqüência do Tratado de Versalhes, ocorreu a perda de seu império colonial e de importantes regiões produtoras de matérias-primas, a cessão de uma faixa de terra à Polônia, conhecida como Corredor Polonês, e a internacionalização da cidade de Dantzig, com a quebra da continuidade territorial. O caos econômico gerou uma brutal inflação. Por outro lado, a limitação imposta à sua capacidade de defesa feria profundamente o orgulho nacional. A desordem política adveio de imediato e o desejo de revanche foi habilmente alimentado pelos remanescentes militaristas, que de forma velada continuaram a exercer influência sobre o povo alemão, insuflando inconformismo contra as duras condições impostas pelo Tratado que traziam a intenção deliberada dos vencedores de não permitir o ressurgimento de uma Alemanha forte.

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O aparecimento da figura carismática de Adolf Hitler no cenário político e o crescimento do nacional-socialismo foram conseqüências desse estado de coisas. A adoção de soluções violentas passou a ser abertamente pregada, de forma que já em 1936 o totalitarismo germânico era uma realidade e uma séria ameaça à paz mundial. Da militarização da Renânia ao ataque à Polônìa e à fulminante vitória alemã sobre o Exército franco-britânico, o mundo perplexo compreendeu que se encontrava no limiar de uma nova guerra mundial ainda mais violenta que a anterior.

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A 1º de setembro de 1939, as divisões blindadas alemãs haviam marchado contra a Polônia. Pouco antes, em dezembro de 1938, os representantes dos povos da América reuniram-se em Lima numa conferência internacional buscando ativar a política de boa vizinhança preconizada pelo Presidente Franklin Delano Roosevelt.

 

As nações americanas, entre elas o Brasil, na tentativa de manter localizada a crise, assistiram passivamente à agonia da França e à desesperada resistência da Inglaterra. Assim, o governo brasileiro tentou reeditar a posição que assumira em 1914: a neutralidade, sob a prudente argumentação de que o engajamento na guerra comportava sérios riscos, além de ser notória a carência de meios militares e econômicos. O discurso do Presidente Getúlio Vargas, em 20 de outubro de 1939, enfatizava essa posição. O jogo de interesses em conflito, entretanto, e a responsabilidade moral pela defesa dos ideais de liberdade ameaçados pela violência nazi-fascista deixavam antever quão difícil seria conservar essa atitude.

 

As ações navais desencadeadas no dia 13 de dezembro de 1939 ao longo da costa uruguaia entre três belonaves britânicas, o Exeter, o Ajax e o Achilles, sob o comando do comodoro Henry Warwood, e o encouraçado alemão Admiral Graf Spee, sob o comando de Hans Langsdorff, e o final dramático no rio da Prata, quando a tripulação o afundou, às 20 horas do dia 17, após tentar o asilo que o governo uruguaio não concedeu, mostraram às nações do Novo Mundo que mesmo neutras elas deveriam estar prontas para enfrentar qualquer eventualidade.

 

Desenvolveu-se assim uma intensa atividade diplomática tendo em vista o fortalecimento do pan-americanismo. As conferências do Panamá, em 1939, de Havana, em 1940, e do Rio de Janeiro, em 1942, consolidaram a integridade continental. Na segunda delas assumiu-se o compromisso de que “todo atentado de um Estado não americano contra a integridade ou a inviolabilidade do território, contra a soberania ou a independência política de um Estado americano será considerado como ato de agressão contra os Estados que assinaram esta Declaração”.

 

Definida a responsabilidade de todos pela segurança do continente, solidarizou-se o nosso governo com as deliberações, porquanto os princípios norteadores e os objetivos em causa estavam em plena concordância com as tradições jurídicas e pan-americanistas da nação brasileira.

 

Em 1941, a Alemanha e a Itália dominavam a Europa continental e o norte da África. Manifestou-se então o terceiro aliado – o Japão, que já desenvolvia política de expansionismo, estabelecendo a Nova Ordem na Asia. Em 7 de dezembro de 1941 forças aeronavais nipônicas atacaram de surpresa a Base Naval de Pearl Harbor, no curso de gestões diplomáticas entre os dois países, destruindo grande parte do poderio norte-americano no Pacífico. A guerra chegava às Americas. O chefe do governo brasileiro, Getúlio Vargas, dirigiu-se ao Presidente Franklin Delano Roosevelt informando-o de que o Brasil estava solidário com os Estados Unidos.

 

Ruptura de relações

 

Estado de beligerância. Durante a Terceira Reunião de Consulta dos Chanceleres, em 28 de janeiro de 1942, realizada no Rio de Janeiro, o Brasil anunciou o rompimento de suas relações diplomáticas com a Alemanha, a Itália e o Japão. Os atos com que o Brasil efetivou essa atitude revelaram de maneira irrefutável a decisão brasileira de prevenir-se contra as agressões eixistas, na iminência de serem desencadeadas contra este hemisfério. Essas providências apressaram a entrada de nosso país na guerra.

 

Nossos navios costumavam viajar regularmente para os países amigos, particularmente os Estados Unidos, aos quais fornecíamos importantes elementos para a sua economia de guerra, em fase de crescimento. Inconformadas, a Alemanha e a Itália iniciaram a guerra submarina contra a nossa navegação comercial. A agressão teve início a 16 de fevereiro de 1942 com o afundamento do navio Buarque. Nele pereceram as primeiras vítimas brasileiras da Segunda Guerra Mundial Dois dias após foi afundado o Olinda, ao largo da costa oriental da América do Norte. De nada adiantaram nossos protestos diplomáticos: continuou a violência, sendo afundados outros navios, apesar de reafirmarmos nossos propósitos de neutralidade. Já havendo desrespeitado a zona de segurança marítima estabelecida na Conferência Interamericana do Panamá, em 1939, os submarinos do Eixo freqüentavam nossas águas territoriais. Entre 14 e 17 de agosto torpedearam e afundaram cinco navios mercantes brasileiros que se encontravam em legítima e pacífica navegação de cabotagem, sacrificando mais de 600 vidas. Os navios atingidos foram Araraquara, Aníbal Benévolo, Baependi, Itagiba e Arará.

 

A opinião pública, tendo à frente a juventude, exigiu imediato revide. O governo, no dia 22 do mesmo mês, reconheceu o estado de beligerância imposto pela Alemanha e pela Itália. No dia 31, o Decreto nº 10.358 declarou o estado de guerra em todo o território nacional. Seguiu-se o Decreto nº 10.451, de 16 de setembro de 1942, de mobilização geral.

 

Causas da participação efetiva na guerra

 

O Brasil entrara na guerra. O governo poderia ter tomado duas atitudes – uma, continuar fornecendo matérias-primas para os arsenais dos países aliados, além de outros produtos essenciais à sua economia de guerra, permitindo a instalação de bases aéreas e navais: outra, participar efetivamente das operações bélicas. Foi adotada uma participação integral, numa decorrência indireta da posição marítima. É que desde cedo as vistas do alto comando norte-americano se voltaram para o significado militar do Nordeste brasileiro, suscetível de ser atingido por forças aéreas e navais vindas do leste. Ocupada a saliência nordestina, ficaria irremediavelmente comprometida a defesa dos Estados Unidos, entregue à mercê do inimigo o Canal do Panamá, órgão vital para a movimentação interoceânica da esquadra norte-americana. Por ocasião da ruptura de nossas relações com o Eixo realizaram-se alentados estudos para efetivar a defesa daquela região brasileira, a cargo, inicialmente, de nossas próprias forças, equipadas com material norte-americano. Foi importante o papel desempenhado pela Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos, fruto do acordo de 23 de maio de 1942, que veio dar organicidade à série de entendimentos levados a efeito por militares representantes de ambos os países, com o fim de assegurar a integridade do Nordeste, incluído no cinturão de defesa estratégica dos Estados Unidos.

 

Caracterizou-se o compromisso brasileiro de cooperação integral com os EUA no caso de agressão ao continente pelos membros do Eixo. Com o agravamento do conflito e os sucessos iniciais de Rommel no norte da África, o governo norte-americano obteve autorização, em 1942, para construir bases aéreas em Belém, Natal e Recife, em condições de apoiarem o deslocamento de forças e de suprimentos para o norte da África. O desembarque aliado no norte da África, em novembro de 1942, atenuou sobremaneira as possibilidades de ação bélica terrestre e aérea contra a América; a eliminação de forças nazi-fascistas do continente africano, em maio do ano seguinte, afastou o perigo de intervenção do Eixo nesta parte do mundo. Na reunião da Comissão Mista de Defesa em Washington, em janeiro de 1943, o Almirante Spears, membro da delegação norte-americana, propôs a participação do Brasil na ofensiva que se articulava contra os países do Eixo, na Europa, visto haver desaparecido o temor de um ataque importante de forças adversas à costa nordestina brasileira. Embora o acordo de maio de 1942 prescrevesse um posicionamento defensivo para nossas forças, a delegação brasileira não pôde deixar de levar em consideração a sugestão apresentada, que caracterizava o apelo de um vizinho.

 

Apareceu, portanto, no curso das negociações oficiais, a idéia da participação efetiva do Brasil na guerra, com forças terrestres. Convém não esquecer que necessitávamos de prover a defesa de extensa faixa atlântica, para o que não possuíamos recursos militares adequados; segundo, eram precisos meios para desenvolver a indústria de base, a indústria bélica e a própria infra-estrutura dos transportes terrestres, pois as vias marítimas se encontravam sob constante ameaça dos submarinos inimigos. A delegação brasileira anteviu os benefícios que adviriam para o Brasil dessa efetiva participação, com o vantajoso crescimento de um de seus mais importantes objetivos nacionais permanentes – o prestígio internacional. Ela expôs o problema ao governo, sugerindo-lhe a organização de um corpo de exército “como base da contribuição à ofensiva de ultramar”. Ulteriormente ventilou-se a possibilidade do envio de efetivos maiores. Uma comissão mista em abril de 1943, empreendeu estudos básicos para a organização de uma força expedicionária. No mês seguinte os componentes da comissão viajaram para o Brasil, onde continuaram os trabalhos sob a presidência de nosso Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, que em agosto seguinte se deslocou para os EUA, onde teve a oportunidade de novamente discutir o assunto. Dias antes (9 de agosto de 1943), fora expedida uma portaria que estruturava a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, 1ª DIE.

 

Causas de várias naturezas – de ordem pessoal umas, administrativas e até estratégicas outras – a que estava associada a rapidez com que marchavam na Europa os acontecimentos militares, fizeram com que apenas uma divisão do pretendido corpo de exército embarcasse para o exterior, acompanhada de diversos órgãos de apoio.

 

Modernização de nossas Forças Armadas

 

O Exército não estava preparado para o tipo de guerra que ia empreender. Havia duas décadas obedecia aos ditames da chamada escola francesa, que tanto contribuíra para sua modernização e para o aprimoramento cultural de seus quadros.

 

Na emergência quase apresentava era necessário rever métodos, processos, sistemas e técnicas, a fim de que pudéssemos atuar integrados ao 4º Corpo de Exército norte-americano. Era necessário uma alteração radical não só na formação mas também no aperfeiçoamento dos oficiais e da tropa, substituindo-se o ecletismo profissional pela técnica de especialização, fator primordial na transformação do Exército norte-americano na maior máquina militar de todos os tempos.

 

O Exército brasileiro não possuía material bélico moderno. A infantaria, ainda estruturada segundo a doutrina militar de 1914, tinha a instrução, a tática e o espírito voltados para a guerra estática que predominara de então a 1918. Não dispunha de meios motorizados nem compreendia o movimento como gerador da ação decisiva. A artilharia, além da carência de material adequado, estava com a técnica, os conceitos e os processos de tiro superados. A cavalaria, ainda hipomóvel, assemelhava-se muito à tão heróica quanto ineficiente cavalaria polonesa, dizimada no primeiro confronto com as modernas formações blindadas nazistas. As premências mais se agravavam no setor de comunicações e de apoio logístico, vitais na guerra moderna.

 

A declaração de guerra obrigava-nos, numa primeira fase, a prover a segurança de nossas fronteiras, principalmente a marítima, e a assegurar as necessidades vitais para a vida do país, sem esquecer a participação efetiva na segurança continental.

 

Defesa do litoral e de áreas importantes do interior

 

Mesmo antes do estabelecimento do estado de beligerância, nosso governo, definindo os rumos da política externa, tratou de preparar a Nação e as Forças Armadas para o conflito. A análise estratégica indicava que de imediato era imprescindível a realização de duas grandes tarefas no campo militar: assegurar a navegação ao longo de nosso litoral e preparar a defesa contra possíveis ataques inimigos. A tarefa de manter a continuidade da navegação caberia à Marinha de Guerra e à Força Aérea. Manter a integridade do território era responsabilidade principal do Exército.

 

A análise da posição geográfica do Brasil mostra de imediato o valor estratégico de nosso litoral, particularmente do saliente nordestino, projetando-se sobre o Atlântico Sul, estreitando-o e dominando-o, a caminho da África. Ele era considerado relevante para as operações aeronavais ao sul do equador e fator decisivo para a conduta da guerra e, por esta razão, alvo principal de qualquer agressão das potências do Eixo. Com o domínio do norte da África pelos nazistas, tornou-se extremamente importante o fortalecimento das defesas do Nordeste brasileiro. Os meios de defesa de tão vasta região, abrangendo os Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia e o Território de Fernando de Noronha, eram constituídos por um batalhão de caçadores em cada capital de Estado e de duas baterias de artilharia, uma em Recife e outra em Salvador. O governo criou uma zona de guerra (Decreto nº 10.490 A, de 25 de setembro de 1942) compreendendo cinco teatros de operações: A (Amazônico), NE (Nordeste-Este), CM (Centro-Meridional), R (Meridional) e M (Mato Grosso, parte do qual pertencia ao teatro de operações A). A partir de então foram sendo tomadas providências para colocar no teatro de operações NE (único que teve comando específico, exercido pelo General Leitão de Carvalho) meios defensivos; em julho, organizaram-se três Regimentos de Infantaria, 14º, 15º e 16º, com sede em Recife, João Pessoa e Natal, respectivamente. Aumentaram-se os efetivos na ilha de Fernando de Noronha e a defesa foi melhorada. Deslocaram-se novos elementos para a região, inclusive unidades de artilharia antiaérea e de costa. Natal suportava agora os efeitos e a movimentação da Base Aeronaval de Parnamirim, de uma brigada de infantaria e de tropas de apoio. Criou-se um sistema de vigilância da costa. Estruturou-se a defesa civil. Em tempo relativamente curto, a região nordestina, graças ao esforço conjugado de militares e civis, estava em condições de resistir, em melhores condições, a qualquer ataque do Eixo. O esquema defensivo estava nucleado no triângulo Natal – Fernando de Noronha – Recife.

 

Grupo de observadores militares

 

É fácil compreender os grandes e numerosos obstáculos que se antepuseram à criação de uma divisão de infantaria denominada Força Expedicionária Brasileira, FEB, nos moldes da doutrina militar norte-americana, em vista de estar o Exercito, por cerca de 20 anos, atrelado à doutrina militar francesa.

 

A nova grande-unidade exigia a criação de novos órgãos e a modificação de princípios básicos, desde muito enraizados em nosso meio militar. Para atenuar e até mesmo superar estes obstáculos, diversas medidas foram adotadas, destacando-se a organização de um Grupo de Observadores Militares. O Exército possuía alguns oficiais com certo conhecimento da doutrina adotada nos EUA pois haviam realizado cursos e estágios naquele país. Alguns dos chefes da FEB também já haviam estagiado em organizações militares do Exército norte-americano.

 

Além de contar com este grupo, ao qual caberia a tarefa inicial de estruturar a FEB, seria muito interessante que o comandante das tropas brasileiras visitasse as prováveis frentes de combate onde seria empregada a nossa tropa. Em dezembro de 1943, seguiu para o norte da África e para a Itália o Grupo de Observadores Militares, sob a chefia do General-de-Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, que regressou depois de algum tempo, tendo quatro observadores permanecido no teatro de operações do Mediterrâneo preparando a chegada da FEB.

 

Organização e adestramento

 

Com a expulsão dos alemães e italianos do Norte da África, em novembro de 1942, e com o desaparecimento do perigo da invasão do território nacional por forças do Eixo, decidiu o governo brasileiro combater os adversários em solo europeu, através da FEB, cuja estrutura foi fixada pela Portaria Ministerial nº 47/44, de 9 de agosto de 1943.

 

A 1ª DIE teria basicamente a seguinte constituição:

 

Comandante: um general-de-divisão.

 

  • Estado-maior geral e estado-maior especial.
  • Infantaria Divisionária: três regimentos de infantaria (1º, 6º e 11º RI).
  • Artilharia Divisionária: quatro grupos de artilharia (I e II Grupos/1º Regimento de Obuses Auto-rebocado e I Grupo/2º RO Auto-rebocado e I Grupo/1º Regimento de Artilharia Pesada Curta.
  • Uma esquadrilha de ligação e observação.
  • Um batalhão de engenharia (9º BE).
  • Um batalhão de saúde (1º BS).
  • Um esquadrão de reconhecimento mecanizado.
  • Uma companhia de transmissões.

 

Elementos de tropa especial. A FEB operou na Itália com o efetivo aproximado de 25 mil homens, contando com quatro generais e 1.535 oficiais. Neste total não estão incluídos três oficiais da Força Aérea Brasileira que serviram na Esquadrilha de Ligação e Observação da 1ª DIE; 15 oficiais da ativa e da reserva destacados para a Justiça Militar da FEB; 25 capelães militares; 28 funcionários do Banco do Brasil e 67 enfermeiras.

 

Inúmeras dificuldades tiveram de ser vencidas durante a organização e a preparação da tropa expedicionária. Os agentes da quinta-coluna, infiltrados até em postos importantes da vida nacional, desencadearam violenta campanha de desagregação, visando a impedir que as tropas brasileiras viessem a combater as forças de Adolf Hitler e Benito Mussolini, em justo desagravo aos traiçoeiros ataques sofridos. Fato que bem demonstra o ambiente psicológico adverso criado pela propaganda nazista encontra-se em uma das versões explicativas do distintivo da FEB – a cobra fumando. A propaganda adversa dizia que era maio fácil a cobra fumar do que a FEB embarcar.

 

Um outro problema que se apresentava era providenciar o uniforme adequado ao futuro teatro de operações, com condições climáticas bem diferentes do Brasil.

 

Era preciso também efetuar uma rigorosa seleção física de pessoal, para a escolha de homens aptos ao combate em clima e ambiente desconhecidos.

 

Quanto às modificações a introduzir no material das unidades de infantaria, além da motorização de muitos de seus elementos, alguns tipos de armamento como o fuzil Garand, o morteiro de 60 mm, o lança-rojão, a metralhadora leve 30, o canhão anticarro de 57 mm e o obus de 105 mm eram desconhecidos entre nós, como também os aparelhos de radiofonia, telefonia e radiotelegrafia empregados pelos norte-americanos. Na artilharia passava a haver uma Esquadrilha de Ligação e Observação equipada com aviões leves, o que melhorava a Eficiência do tiro, e a substituição de canhões de 75 mm pelos de 105 e 155 mm. Na engenharia houve transformações radicais devidas ao equipamento inteiramente novo, que exigia um conjunto de especialistas de difícil obtenção, como estenógrafos, químicos, operadores de tratores especiais, mineiros, eletricistas, rádio-operadores, operadores de compressores de ar e muitos outros. Na cavalaria, as inovações não foram pequenas, a começar pela mecanização dos meios. Para os serviços, em geral, o recrutamento se tornava difícil em face da quantidade de especialistas que se requeria para o preenchimento de claros.

 

A nova organização e os novos meios exigiam novos tipos de adestramento, de acordo com os métodos e processos norte-americanos, que só foram completamente compreendidos com o decorrer do tempo, em plena Itália, mesmo porque o material disponível para a instrução era insuficiente.

 

Na segunda quinzena de março de 1943, concluiu-se a concentração da 1ª DIE na Vila Militar, Rio de Janeiro, prosseguindo a preparação técnica e tática, bem como a convocação especial de artíficies e especialistas.

 

A orientação do comandante, General Mascarenhas de Morais (nomeado a 28 de dezembro de 1943) atribuía a maior importância à execução de tiro, marchas a pé e exercícios práticos, sendo freqüentes as visitas e as inspeções.

 

No decorrer do mês de abril iniciou-se a instrução de embarque e desembarque, a fim de tornar a tropa apta a realizar operações dessa natureza em navios e outros meios de transporte.

 

A 24 de maio de 1944, em homenagem a Tuiuti, toda a 1ª DIE desfilou pelas principais ruas da capital federal, recebendo entusiásticos aplausos da população.

 

Viagem para além-mar

 

Concluídos os trabalhos de organização e adestramento, era preciso transportar a Força para o teatro de operações europeu. O governo tinha duas opções; a primeira seria transportar a tropa em navios nacionais; a segunda consistia em aceitar o oferecimento dos EUA, que dispunha de numerosa frota de navios de transporte de tropa. A exigüidade de tempo disponível levou à última opção.

 

Decidida a realização do embarque, procurou-se cercá-lo de todo o sigilo, a fim de evitar possíveis ataques de submarinos do Eixo, ainda ativos no Atlântico Sul.

 

A FEB fracionou-se em quatro escalões para o deslocamento até Nápoles, nas seguintes condições:

  • 1º escalão: embarcou a 2 de julho de 1944, a bordo do General Mann, ao comando do General Euclides Zenóbio da Costa, chegando a 16 de julho; acompanhou-o o General Mascarenhas de Morais; a tropa era constituída do 6º Regimento de Infantaria, com 5.075 homens, inclusive 304 oficiais.
  • 2º escalão: zarpou a 22 de setembro de 1944, em dois navios, o General Mann e o General Meighs, ao comando do General Osvaldo Cordeiro de Farias, aportando a 6 de outubro; a tropa era integrada pelo 1º e pelo 2º Regimentos de Infantaria, no total de 10.375 homens, sendo 686 oficiais.
  • 3º escalão: partiu a 23 de novembro de 1944, pelo General Meighs, ao comando do Coronel Mário Travassos, e atingiu o porto italiano a 7 de dezembro; o efetivo era de 4.691 homens, destinados a substituições e preenchimento de claros.
  • 4º escalão: deslocou-se a 8 de fevereiro de 1945, pelo General Meighs, ao comando do Tenente-Coronel Ibá Jobim Meireles, chegando a destino a 22 de fevereiro; o efetivo era de 5.082 homens que se destinavam ao recompletamento.

O transporte de 11 elementos de saúde, médicos e enfermeiras em particular, destinados a servir em hospitais norte-americanos, se fez por via aérea, na rota Rio – Natal – Dakar – Nápoles.

 

Dessa maneira, estava no continente europeu a primeira força latino-americana a combater em terras de ultramar.

 

Adestramento no teatro de operações

 

O primeiro escalão chegou sem incidentes ao porto de Nápoles, sendo recebido pelo Tenente General Jacob Devers, comandante de todas as forças norte-americanas em operações no Mediterrâneo, e seguiu por ferrovia para Agnaro, pequena localidade próxima ao subúrbio napolitano de Bagnoli, acampando em bosques existentes na cratera do extinto vulcão Astroni. A ansiedade da tropa brasileira de entrar em ação induziu o General Mascarenhas de Morais, desde os primeiros dias em Bagnoli, a interessar-se vivamente pelo recebimento do material bélico e pela transferência do primeiro escalão para uma área de treinamento, o que tornaria possível o melhor adestramento da tropa.

 

Em decorrência das entrevistas mantidas com autoridades militares estadunidenses para a concretização daqueles propósitos, o General Mascarenhas de Morais recebeu, em 26 de julho de 1944, autorização para o deslocamento da tropa brasileira para a região de Tarquínia, onde durante 15 dias realizou-se o recebimento do armamento e do equipamento que iriam ser utilizados.

 

A 5 de agosto, a 1ª DIE incorporou-se ao V Exército norte-americano, veterano da campanha no norte da África. A seguir, nossa tropa foi deslocada de Tarquinia para Vada, distante 25 quilômetros da frente de batalha do Arno, onde seria submetida a intenso treinamento pelo período de três semanas. A 1ª Companhia de Engenharia colocada à disposição do 4º Corpo de Exército construiu uma ponte sobre o rio no, como parte de seu programa de instrução. A operação terminou em 20 de agosto.

 

O último exercício foi realizado a 10 de setembro, presenciado pelo General Mark Clark, que o acompanhou com vivo interesse. No seu encerramento, depois de 36 horas, o general mostrou-se satisfeito com os resultados, declarando que a tropa estava apta para entrar em linha, notícia que foi recebida com justificado orgulho. Em conseqüência, organizou-se o Destacamento Força Expedicionária Brasileira, que atuaria na frente de Pisa, integrando as forças do corpo de exército comandado pelo General Willis D. Crittenberger. O Destacamento, sob o comando do General Zenóbio da Costa, era constituído pelo 6º Regimento de Infantaria, pelo 2º Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocado, 1ª Companhia do 9º Batalhão de Engenharia e elementos de serviços, num total de 237 oficiais e 4.331 praças.

 

De acordo com as normas adotadas para as unidades sem experiência de combate, como era o caso da FEB, a 1ª DIE deveria ser lançada em uma frente pouco ativa, na qual receberia o batismo de fogo e adquiriria a experiência e confiança para operações de maior envergadura e responsabilidade.

 

Situação dos aliados na Itália

 

Ao desembarcarem os primeiros componentes da FEB, a Itália encontrava-se dividida em dois blocos; um deles era favorável à causa dos aliados, o outro continuava apoiando os alemães.

 

Nos primeiros dias de agosto de 1944, após a captura de Monte Cassino, a ocupação de Roma e a desocupação de Florença, o corte do rio Arno demarcava os limites geográficos das duas facções.

 

Antes da chegada dos brasileiros da Itália, os norte-americanos e os ingleses já haviam desembarcado no sul da península. O Marechal Albert Kesselring, que se encontrava no comando das forças alemãs, procurou impedir a progressão dos aliados para Nápoles, mas não conseguiu e então recuou para barrar o avanço aliado nas cercanias de Roma. No corte dos rios Volturno e Garigliano instalou o X Exército, deixando o XIV na defesa do litoral do mar Tirreno. A defesa no Volturno cedeu, o que não ocorreu no Garigliano, em virtude do forte sistema defensivo montado. Ao sentir que não podia sustentar por mais tempo a posse de Roma, Kesselring recuou mais para o norte. Os dois exércitos alemães instalaram-se na chamada Linha Gótica, desdobrando-se em uma frente de cerca de 280 quilômetros, que começava na região costeira do mar Tirreno e terminava na faixa litorânea do Adriático.

 

Com a transferência de sete divisões francesas e três norte-americanas para a França meridional para serem empenhadas na Operação Dragão, enfraqueceu-se o ímpeto ofensivo das forças aliadas na Itália. A chegada providencial da divisão brasileira não compensava o desfalque sofrido pelo 15º Grupo-de-Exércitos, a que pertencia o V Exército dos EUA, mas permitia ao seu comando continuar a pressão sobre o inimigo, para não lhe dar tréguas e para impedir que se fixasse solidamente nas montanhas dos Apeninos. Esta circunstância levou a 1ª DIE à frente de combate antes de ultimados a concentração e o adestramento.

 

Batismo de fogo

 

A zona de ação atribuída ao Destacamento FEB situava-se entre a planície do litoral do mar Tirreno e o vale do rio Serchio, englobando os contrafortes dos Apeninos, conhecidos também como Alpes de Apuânia.

 

Os brasileiros substituíram a tropa americana que se achava em linha, disposta em frente extremamente larga, na noite de 15 de setembro. No dia 16, chegou ordem de avanço para nova linha balizada pelas alturas do Monte Communali – La Quiesa – Monte Acuto. Às 14:22 horas a artilharia abriu fogo pela primeira vez, nas encostas do Monte Bastione, situado em Massarosa. Com a investida sobre o Monte Nocchi, na manhã do dia 18, nossas forças apoderaram-se de Camaiore e no dia seguinte conseguiram cerrar sobre os postos avançados da famosa Linha Gótica. Após duras jornadas, foi atingido Monte Prano (26 de setembro). A estréia do Destacamento FEB foi auspiciosa, mormente por se tratar de uma tropa inexperiente que se defrontava com tropas veteranas dispostas em boas posições defensivas.

 

Na jornada de 27 de setembro, nossas patrulhas perderam o contato com o inimigo, que se furtava ao combate, protegido pelas escarpas de um terreno difícil. Inúmeras foram as cidades e vilas conquistadas no vale do Serchio, destacando-se Massarosa, Camaiore, Monte Prano, Fornaci, Gallicano e Barga. A 11 de outubro, conquistadas as alturas que pelo sul dominam a vila de Gallicano, procurou o General Zenóbio consolidar as suas posições, enquanto, mediante o lançamento sistemático de patrulhas, colhia informações sobre o dispositivo e a força inimiga, tendo em vista atacar Castelnuovo di Garfagnana, ponto-chave de seu sistema defensivo na área.

 

Na manhã de 30 de outubro, apesar da lama e da chuva, o Destacamento FEB atingiu a linha de alturas do onde deveria lançar-se sobre a importante posição alemã.

 

Em virtude da importância vital que representava aquela localidade, o inimigo fazia um grande esforço para deter os ataques e desfechava invariavelmente violentos contra-ataques. Nossas tropas foram surpreendidas e recuaram para a zona de reunião, pagando caro a imprevidência de subestimar o valor combativo do adversário; era o primeiro revés na campanha da Itália.

 

Não obstante, de 16 de setembro a 31 de outubro, a FEB progrediu 40 quilômetros, capturou 208 prisioneiros, conquistou algumas cidades e uma fábrica de acessórios para aviões, sofrendo 290 baixas, entre mortos, feridos, acidentados e desaparecidos.

 

Conferência do Passo de Futa

 

A 30 de outubro de 1944 realizou-se uma conferência em Passo de Futa, presidida pelo General Mark Clark. Dela participaram os mais importantes chefes do V Exército, entre eles o General Mascarenhas de Morais. Depois de abordar a situação dos exércitos aliados na Itália, mostrando as dificuldades que advinham da exigüidade de efetivos, manifestou o comandante norte-americano o propósito de retomar a ofensiva em dezembro, após proporcionar justo repouso à tropa, castigada por árduos combates. A 1ª DIE empenharia o Destacamento FEB no vale do rio Reno, onde se travava uma luta difícil, e logo que possível empregaria o restante de suas forças, em fase final de adestramento.

 

Primeiro ataque a Monte Castelo

 

Em cumprimento à ordem do 4º Corpo de Exército, o General Mascarenhas de Morais assumiu no dia 1º de novembro de 1944, com a chegada das demais unidades. O controle da totalidade de seus meios, inclusive das operações que se processavam no vale do Serchio. Em substituição a algumas unidades norte-americanas que atuavam no vale do Reno, nossas tropas, ao lado de forças mecanizadas estadunidenses, concorreram para o desafogo da situação naquela frente. Coube à 1ª DIE um importante setor da frente que englobava a estrada nº 64, ao norte de Porretta Terme, e que aos poucos se ampliava com novas missões recebidas. Era intenção do comando norte-americano rocar forças dessa para outra frente de combate. Nos últimos dias de novembro as posições brasileiras tinham mais de 15 quilômetros e eram dominadas pelas alturas em que o inimigo se firmara. Do alto das elevações mais de uma divisão alemã tinha comandamento de vistas sobre nossas posições, lá embaixo.

 

Entre as elevações dominadas pelos alemães, uma se destacava pela importância tática: Monte Castelo. Se não fosse conquistado, seria impossível às forças do 4º Corpo de Exército prosseguirem em direção a Bolonha, objetivo do V Exército, antes de caírem as primeiras nevadas. Cabia aos brasileiros, naquele fim de outono e durante todo o inverno seguinte, a responsabilidade de defender o setor talvez mais ingrato de toda a frente apenina. As primeiras operações no vale do Reno resumiram-se a quatro ataques mal sucedidos contra o baluarte de Monte Castelo. O primeiro e o segundo, realizados a 24 e 25 de novembro, sob a direção e responsabilidade do grupamento tático da 45ª Divisão de Infantaria norte-americana – Task Force 45 – que recebeu da 1ª DIE o reforço de um Batalhão de Engenharia e do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado, contando também com apoio de artilharia, não obtiveram sucesso, sem consolidação das posições conquistadas.

 

As duas malogradas tentativas, além de concorrerem para a manutenção do elevado moral do inimigo, serviram para alertá-lo quanto ao firme propósito aliado de conquistar aquela posição. A Task Force 45, entretanto, apossara-se de Monte Belvedere, região importante para as ações sobre Monte Castelo. O terceiro ataque, planejado para o dia 29 de novembro, apenas quatro dias depois dos primeiros insucessos, seria de total responsabilidade da 1ª DIE.

 

Organizou-se para esse fim um grupamento constituído pelos I/1º RI (Batalhão Uzeda), III/1º RI (Batalhão Cândido) e III/6º RI (Batalhão Silvino), sob o comando do General Zenóbio da Costa, que teria o apoio de dois grupos de artilharia brasileiros e possivelmente de um grupo de artilharia do 4º Corpo de Exército.

 

Na noite de 28, véspera do ataque, surgiu um imprevisto. Em fulminante contra-ataque, as tropas da 232ª Divisão de Infantaria alemã expulsaram os norte-americanos de Monte Belvedere, conquistado quatro dias antes, deixando assim descoberto o flanco esquerdo da tropa brasileira. O comando da 1ª DIE pensou em adiar o ataque, na esperança de reconquistar Belvedere. Concluiu-se que era desaconselhável, pois a tropa já se encontrava nas posições de ataque. Às 7 horas do dia 29 iniciou-se o ataque. As condições de tempo eram adversas; chovia e o apoio aéreo tornou-se inviável; a grande quantidade de lama reduziu ao mínimo a participação dos carros-de-combate. Apesar de tudo, até o meio-dia tudo parecia indicar um bom êxito para a operação, porquanto o Batalhão Uzeda progredia regularmente, embora possuísse alguns elementos detidos, e o Cândido já estava bem próximo do objetivo. Mas o contra-ataque alemão não tardou e ao fim da tarde os dois batalhões brasileiros voltaram às posições iniciais, com 190 baixas.

 

A 5 de dezembro, chegou ao posto de comando avançado da 1ª DlE em Porreta a determinação do 4º Corpo de Exército de que a 1ª DIE deveria conquistar e manter a crista de Monte della Torraccia-Monte Belvedere. Isto significava que Monte Castelo, localizado no centro daquela linha de alturas, seria mais uma vez o objetivo principal da próxima ofensiva, cujo início o General Mascarenhas de Morais fixara para o dia 12. Às 6:30 horas desse dia ocorreu o quarto ataque a Monte Castelo. A luta não demorou mais de cinco horas. Voltaram a se conjurar os mesmo fatores adversos das tentativas anteriores; a falta de visibilidade impedia o emprego da Força Aérea e a chuva persistente tornou o terreno um lamaçal entre Gaggio Montano e Castelo, impedindo a progressão de carros. Mesmo assim as forças brasileiras conseguiram alguns sucessos iniciais.

 

No flanco esquerdo, os brasileiros conquistaram Zolfo, a apenas algumas centenas de metros do cume e, ao centro, chegaram a Abetaia, onde foram detidos por cerrada concentração de fogos de morteiro.

 

Entre as causas de nossas dificuldades em Monte Castelo destaca-se a falta de adestramento da tropa, levada prematuramente à frente de combate por força dos acontecimentos. Esse ataque mostrou a necessidade de modificação dos planos para a conquista do objetivo. Era evidente que Monte Castelo não poderia ser arrebatado aos alemães apenas com o concurso de algumas unidades. Impunha-se o empenho ofensivo de toda a Divisão, particularmente quando se verificou que o inimigo mantinha aquela posição a todo custo, pois se preocupara em reforçar e substituir as unidades que a defendiam por tropas descansadas. Monte Castelo, por sua importância, tornou-se a maior disputa entre brasileiros e alemães durante toda nossa atuação na campanha da Itália.

 

Operar numa frente de 15 quilômetros francamente dominada pelo adversário e atacar um objetivo do valor de Monte Castelo com a ameaça de flanco de Belvedere, eram encargos que exorbitavam da capacidade de uma divisão. Esta opinião, defendida com firmeza pelo General Mascarenhas de Morais perante o comando do 4º Corpo de Exército, acabou por prevalecer, ficando a divisão brasileira temporariamente dispensada de atividades ofensivas.

 

Na segunda quinzena de dezembro, caiu sensivelmente a temperatura, chegando a atingir 18 graus centígrados abaixo de zero. Era o inverno implacável que se aproximava, trazendo a estabilização para toda a frente italiana. Seria a oportunidade de que se valeria o comando brasileiro para proceder aos reajustamentos necessários.

 

Oriundo de país tropical, habitando em geral em regiões planas e de temperaturas amenas, o soldado brasileiro, apesar disso, adaptou-se rapidamente ao rude inverno dos Apeninos.

 

Durante o período de estabilidade, cerca de 70 dias, suportou a inclemência do tempo, guarnecendo a frente atribuída à tropa brasileira.

 

Sua capacidade inventiva e de adaptação transformaram-no logo em um combatente hábil e temido pelo adversário. Em contato com o inimigo, em tempo curto, aprimorou técnicas e apresentou alto grau de agressividade, impondo-se à justa admiração de seus camaradas aliados.

 

O Serviço Especial esforçou-se sempre em montar e executar planos que possibilitassem à tropa repouso, recuperação e distração, particularmente em Roma e Florença.

 

Cada um dos integrantes da 1ª DIE levou o seu equipamento individual e o fardamento tipo FEB, de brim e de lã. Na Itália, receberam artigos diversos que se tornaram indispensáveis para suportar o frio e a lama. Um dos problemas foi conseguir calçados norte-americanos que se coadunassem com os números dos nossos militares. A FEB empregou civis italianos para a confecção de roupas para o inverno e manteve uma fábrica de sabão.

 

O deslocamento fazia-se a pé, em composição ferroviária ou em caminhões dos EUA. A Companhia de Manutenção teve papel destacado, transportando material do porto para as frentes de combate. Rações, material de intendência, gasolina, viaturas e armamento constituíam as principais cargas a serem transportadas. Eram tantas as viaturas em deslocamento que se fez necessário um controle do trânsito pelo Pelotão de Polícia. Além disso, as estradas tiveram de ser mantidas em condição de trânsito, tarefa do Serviço de Engenharia. A Base ficou instalada, inicialmente, na região de Nápoles (Tenente-Coronel Sebastião A, de Carvalho), avançando, depois, para Livorno e Florença.

 

A tropa consumia três tipos de ração: a K, contida em três pequenas caixas, tendo, cada uma, uma lata de queijo, patê ou sopa desidratada, biscoitos, limonada ou café solúvel, chocolate, cigarros, fósforos, um tablete de Halazone, para purificação da água, uma colher e um abridor de latas; a C, contida em seis pequenas latas, três com alimento à base de carnes e cereais e três com artigos variados; e a B, consumida diariamente pela tropa, compreendendo três refeições: pela manhã, café, leite, pão, geléia e extrato de tomate; e o almoço e jantar, com carne ou galinha, ovos, frutas, pão, café, cigarros, fósforos. Por causa do frio distribuíram-se cápsulas de vitaminas.

 

O Serviço de Transmissões instalou uma rede telefônica, permitindo ligações para qualquer unidade, inclusive com órgãos brasileiros e norte-americanos. A Companhia de Manutenção, estacionada em Pistóia, reparava viaturas e armas, além de fornecer a munição necessária ao combate. O preenchimento de claros, ocasionados pelas mais diversas baixas, efetuava-se requisitando homens no Depósito de Pessoal, localizado em Stafole, com um efetivo de 10 mil homens.

 

Depois da tomada de Monte Castelo, a tropa brasileira continuou o avanço rumo norte, aumentando a necessidade de transportes. A própria artilharia chegou a utilizar as suas viaturas no transporte da infantaria, apelidando essa atividade de “Empresa de Mudança Rosa de Ouro”.

 

O nosso Serviço de Saúde, dirigido pelo Coronel Dr. Emmanuel Marques Porto, cumpriu muito bem a sua tarefa. Providenciou vacinas para todo o efetivo, conseguindo um satisfatório estado sanitário da tropa. Evacuou feridos e doentes com seus próprios meios, conduzindo-os para o 32º Hospital, os mais graves, e para o 16º Hospital de Evacuação, em Pistóia. No período de novembro de 1944 a fevereiro de 1945, atendeu a 884 feridos, 3.316 doentes, 406 acidentados, além de terem passado pelo posto de triagem 3 aliados, 2 feridos inimigos e 174 civis italianos. É importante ressaltar que o elevado número de doentes resultou por afecções nas vias respiratórias: os nossos homens não estavam acostumados ao frio intenso das elevações dos Apeninos. Contra a malária empregaram-se mosquiteiros e o DDT, além de repelentes. A higiene pessoal deixou a desejar por causa das dificuldades de instalações de banho. Alguns casos de doenças venéreas ocorreram. O “pé de trincheira” foi vencido engenhosamente pelo nosso soldado, que colocava no galochão jornais, panos de lã, penas de galinha e feno seco. O Serviço de Saúde contou, também, com dedicadas enfermeiras. O Quadro, criado pelo Decreto nº 6.097, de 15 de dezembro de 1943, destinava-se à formação de enfermeiras militares. Um grupo de voluntárias recebeu instrução no Rio de Janeiro e, após passarem em testes, as classificadas foram convocadas para o serviço ativo do Exército. Em número de 67, seguiram, via aérea, para a Itália, partindo no dia 7 de julho de 1944 do Rio de Janeiro, chegando sete dias depois em Nápoles. Ficaram como enfermeiras de 3ª classe com soldo de 2º sargento, contrastando com as enfermeiras norte-americanas, que tinham posto de segundo tenente a coronel. O General Mascarenhas de Morais, com alto tirocínio, promoveu-as a segundo tenente, permanecendo, contudo, com o soldo de 2º sargento. As nossas enfermeiras atuaram nos diversos hospitais da Itália: o Geral, em Nápoles, o de Base (o 7th Station Hospital), em Livorno, os de Evacuação (o 38th, o 16th e o 15th), o Hospital de Campo, próximo da linha de frente, etc.

 

Os corpos dos mortos em ação foram levados para Pistóia e enterrados nessa localidade.

 

O Serviço Religioso sempre esteve presente, integrado por um capelão-chefe, Padre João Pheeney de Camargo e Silva, 24 sacerdotes católicos e 2 evangélicos. A todo o momento procuraram levar aos homens o estímulo e a palavra da fé. Destacou-se o Padre Antônio Alvares da Silva, o Frei Orlando, falecido acidentalmente quando se dirigia à região de Riola.

 

O Serviço Postal encarregou-se de entregar a correspondência que do Brasil familiares e amigos dos pracinhas escreviam. As cartas e encomendas eram transportadas pelos norte-americanos da Base de Parnamirim (Natal) para Livorno e, desta cidade, para as várias sub-estações postais. Os febianos receberam 232.775 cartas e enviaram 335·472.

 

Todas essas providências, paralelamente ao adestramento a que vinha se submetendo o expedicionário na zona de combate ou em Stafoli, onde ficava nosso Depósito de Pessoal, refletiam o intuito do comando brasileiro de transformar a Divisão em grande unidade, à altura das responsabilidades que se avizinhavam.

 

À medida que se atenuava o inverno, iniciavam-se os preparativos para a ofensiva que tão brilhantes vitórias prodigalizaria à tropa brasileira.

 

Plano Encore

 

No teatro da Itália, desde meados de setembro de 1944, na mesma ocasião em que o primeiro escalão da FEB entrava em linha, começara o que mais tarde se convencionou chamar batalha dos Apeninos, cujo término vitorioso para as armas aliadas só se concretizou pelos resultados conseguidos na ofensiva do 4º Corpo de Exército, de 19 de fevereiro a 5 de março, e no avanço da primavera, de 14 de abril a 2 de maio de 1945· Esse ataque do 4º Corpo era uma operação tática de amplitude restrita; na primavera, contudo, seriam realizadas operações de envergadura estratégica e de caráter decisivo no desfecho da campanha da Itália.

 

Em fevereiro de 1945, ainda perdurava um enorme saliente no dispositivo nazifascista, nas montanhas dos Apeninos, exatamente na área de responsabilidade do 4º Corpo-de-Exército, no setor em que vinha atuando a 1ª DIE. Enquanto o XV Exército alemão ocupasse as alturas que separam os cursos do Marano e Aneva do Reno e Panaro, a estrada 64, que ligava Porreta Terme a Bolonha, ficaria impossibilitada de uso para abastecimento de cinco das 10 divisões do V Exército americano. Em conseqüência, foi atribuída ao 4º Corpo de Exército, ao qual estavam incorporadas a 10ª Divisão de Montanha e a DIE, a realização desse movimento ofensivo com a finalidade de eliminar ou reduzir o saliente, mediante a conquista de alturas situadas naqueles divisores de águas.

 

Em conseqüência, as duas divisões deveriam, em final de operação, cerrar sobre a última posição defensiva inimiga, a famosa Linha Gengis Khan. A ofensiva do 4º Corpo realizar-se-ia na segunda quinzena de fevereiro, com a participação da 10ª Divisão de Montanha e da 1ª DIE. Elaborou-se então o Plano Encore, cujo objetivo era expulsar o inimigo do Reno e em seguida persegui-lo através do vale do Panaro.

 

A primeira parte do plano prescrevia à 1ª DIE, em síntese, o seguinte:

 

· 1ª fase: conquista de Monte Castelo, em íntima ligação com a 10ª Divisão de Montanha, que atacaria Belvedere e Monte della Torraccia;

 

· 2ª fase: limpeza do vale do Marano e conquista de Santa Maria Villiana;

 

· 3ª fase: conquista de Torre di Nerone e Castelnuovo.

 

A 16 de fevereiro, houve uma reunião para tratar dos pormenores relacionados com a primeira parte do plano. Além do General Willis D. Crittenberger, estavam presentes os generais Mascarenhas, George Hayes e William Grane, respectivamente comandantes da 1ª DIE, 10ª Divisão de Montanha e da artilharia do 4º Corpo de Exército.

 

A missão dos brasileiros era mais uma vez desalojar os alemães de Monte Castelo. Prevaleceria o ponto de vista defendido pelo General Mascarenhas, de que a posição alemã no íngreme espinhaço apenínico só poderia ser conquistada com o emprego da DIE como um todo.

 

Ataque final

 

A ofensiva do 4º Corpo de Exército iniciou-se às 23 horas do dia 19 de fevereiro, com o ataque da 10ª Divisão de Montanha que ao clarear da manhã seguinte conquistou Monte Belvedere e em seguida Gorgolesco. Às 17 horas do dia 20 caiu Mazzancana, que fora bombardeada por aviões da FAB.

 

A manobra da 1ª DIE comportava:

 

· um ataque principal atribuído ao 1º Regimento de Infantaria (Coronel Aguinaldo Caiado de Castro) contra Monte Castelo, e;

 

· um ataque secundário e limitado, a cargo do II/11º Regimento de Infantaria (Batalhão Ramagem).

 

Às 5:30 horas do dia 21 foi desencadeado o ataque com uma ação frontal do Batalhão Franklin (III/1º RI) e uma ação flanqueante do Batalhão Uzeda (I/1º RI). O Batalhão Syseno (II/1º RI) ficou como reserva do Regimento Sampaio (1º RI).

 

Como reserva da 1ª DIE foram mantidos o 11º Regimento de Infantaria (menos o Batalhão Ramagem) e o Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado (Capitão Plínio Pitaluga). Ao 9º Batalhão de Engenharia (Coronel José Machado Lopes) coube a limpeza dos campos de minas e a conservação de estradas, tarefas indispensáveis ao sucesso da operação.

 

Previra-se no Plano Encore a simultaneidade no ritmo de progressão dos ataques norte-americanos e de brasileiros a Monte della Torraccia e Monte Castelo, respectivamente. Na realidade, porém, às 17:30 horas, quando os primeiros elementos do Regimento Sampaio atingiram o topo de Monte Castelo os soldados da 10ª Divisão de Montanha ainda não haviam quebrado a resistência alemã. Além de nossa perfeita coordenação na progressão dos escalões de ataque, houve também uma eficiente preparação de fogos de artilharia divisionária, que era comandada pelo General Cordeiro de Farias, tendo como comandantes de grupo os coronéis Waldemar Levy Cardoso, Geraldo da Camino, José de Souza Carvalho e Hugo Panasco Alvim.

 

O descontrole nervoso dos primeiros alemães capturados por nossos soldados mostrava o que para eles significara a implacável concentração de fogos sobre as posições de defesa.

 

Em Monte Castelo a FEB viveu o episódio mais emocionante de sua trajetória em território italiano e celebrou o primeiro combate vitorioso da DIE na batalha dos Apeninos. Com a conquista do valorizado objetivo, a FEB saldou um de seus mais sérios compromissos, pelos aspectos morais que continha. Sorvedouro de centenas de vidas brasileiras, a conquista de Monte Castelo constituiu dever de consciência e imperativo da dignidade militar.

 

Nos dias 23 e 24 de fevereiro, ocorreu o combate de La Serra, em que se empenhou o II/1º Regimento de Infantaria (Batalhão Syseno), cuja ação vitoriosa encerrou a 1ª fase da ofensiva do 4º Corpo de Exército.

 

Com novo reajustamento no dispositivo das duas divisões ultimou-se a segunda fase, que consistia na limpeza do vale do Marano pelo II/11º Regimento de Infantaria, nos dias 3 e 4 de março.

O ataque a Castelnuovo (5 de março de 1945), empreendido pelo 6º Regimento de Infantaria (Coronel Nelson de Melo), acrescentou novo triunfo às nossas forças. A operação consistia, de modo geral, em dois ataques combinados: o do 6º Regimento de Infantaria, progredindo ao longo da crista de Castelnuovo, pelo flanco da posição adversária, e o do 11º Regimento de Infantaria (Coronel Delmiro de Andrade), que buscava contornar o povoado e cortar a retirada do inimigo pela estrada Castelnuovo – Affrico.

 

Na manhã de 5 de março, os dois regimentos ocuparam as posições de ataque. O 11º Regimento de Infantaria teve sua marcha dificultada pela presença de campos minados. Por volta das 10 horas a 2ª Companhia atingiu Soprasasso. Ao fim da tarde a Cota F20 era conquistada. O comandante decidiu prosseguir sobre Castelnuovo. A surpresa foi tão completa que chegou a encontrar os alemães à mesa, em pleno rancho. Às 19 horas dominavam Castelnuovo. Ao mesmo tempo, o 11º Regimento de Infantaria, mesmo encontrando fatores adversos, passou por Montecavalloso e Boscaccio, abrindo o caminho para Vergato. No dia seguinte o General Crittenberger comunicou o término da ofensiva do 4º Corpo de Exército, que passaria a dispor de excelentes posições para desfechar o golpe final sobre a Bolonha. Os vales de Silla e do Reno ficavam livres das vistas e dos fogos inimigos, liberando a retaguarda da incômoda cortina de fumaça que durante todos esses meses era gerada desde o clarear do dia até o pôr do sol.

 

Ofensiva da primavera

 

Enquanto a FEB e a 10ª Divisão de Montanha se empenhavam na ofensiva do 4º Corpo-de-Exército, o Estado-Maior do 25º Grupo-de-Exércitos aliado preparava a ofensiva da primavera, empregando 20 divisões e 10 brigadas que integravam dois exércitos, o VIII Exército britânico e o V Exército norte-americano, em coordenação com operações análogas nas frentes oriental e ocidental.

 

Esta ofensiva caracterizou-se como uma operação de larga envergadura. No tempo, prolongou-se de 14 de abril a 2 de maio de 1945; no espaço, cobriu todo o norte da Itália, em duas batalhas bem definidas: a dos Apeninos e a do Pó. Foi desencadeada a partir de uma linha que se estendia do Adriático ao Tirreno, cerca de 30 quilômetros ao sul de Bolonha, englobando todas as forças aliadas da frente italiana integrantes do 25º Grupo-de-Exército. Foi uma arrancada que nesse teatro-de-operações conduziu os aliados à vitória final, a 2 de maio de 1945.

 

Cabia ao 4º Corpo a tarefa de realizar o esforço principal, rompendo as posições alemãs na Linha Gengis Khan. O Grupo-de-Exércitos prosseguiria e desembocaria na histórica planície do Pó; a seguir deveria desdobrar-se velozmente para atingir os Alpes nas fronteiras com a França, Suíça, Áustria e Iugoslávia, bloqueando todos os caminhos de retraimento do inimigo para o interior da Alemanha.

 

O adversário era muito experiente e soube tirar partido do terreno, que favorecia as ações defensivas. Instalando-se nas alturas ao sul de Bolonha, aproveitou ao máximo as vantagens que o local oferecia. Até a planície do rio Pó o terreno se apresentava difícil para as operações ofensivas dos aliados.

 

Reunião de Castelluccio

 

A 8 de abril, o comandante do 4º Corpo convocou os comandantes de divisões para uma reunião que deveria realizar-se em seu quartel-general instalado em Castelluccio. Nessa oportunidade o General Mascarenhas de Morais conseguiu uma maior participação da 1ª DIE, que recebera inicialmente a atribuição de manter as posições e o contato com o inimigo à frente, em condições de persegui-lo caso se retirasse. O General Mascarenhas de Morais obteve autorização para atacar a região de Montese – Montello, que, uma vez conquistada, levaria fatalmente às barrancas do rio Panaro. A sugestão apresentada elevou o conceito do comandante da 1ª DIE entre seus pares.

 

A operação ofensiva fora prevista para o dia 12, mas as condições metereológicas não se apresentavam favoráveis, já que a visibilidade insuficiente não possibilitava o emprego da Força Aérea.

 

Nesse dia 12, uma patrulha de 21 homens alcançou a elevação de Montaurigula procedendo à limpeza dos campos minados, sendo desativadas 82 minas.

 

Dia D – Montese

 

A 14 de abril de 1945 prosseguiu a batalha dos Apeninos, com o ataque do 4º Corpo à Linha Gengis Khan; era o início da ofensiva da primavera.

 

Às 8:30 horas os aviões aliados levantaram vôo e em vagas sucessivas deslocaram-se para o norte. No dispositivo do V Exército norte-americano a Divisão brasileira ocupou posição de singular relevo – a cobertura de flanco durante o ataque, no trecho oriental da bacia do Panaro. Nessa memorável jornada, nossa divisão e a 10ª Divisão de Montanha, à direita, atuaram com movimentos sincronizados. A missão da 1ª DIE compreendia duas fases bem distintas: a primeira era o lançamento de fortes patrulhas (pelotões reforçados por turmas de mineiros) com o objetivo de obter o controle da primeira linha de alturas; a segunda consistia numa ruptura para conquistar a região de Montese – Montello. Lançaram-se as patrulhas no momento preciso em que a 10ª Divisão de Montanha iniciava o ataque. O violento fogo de artilharia para apoiar essas ações em força dera a impressão de que fora desencadeado um ataque em larga frente. A reação do inimigo foi imediata. O fogo inimigo, de artilharia e de morteiros, era concentrado sobre a linha de partida e sobre os elementos em progressão. Quase ao meio-dia um pelotão anulou forte resistência inimiga e capturou a localidade de Possessione.

 

Às 13 horas encerrou-se a primeira fase, com o cumprimento de todas as missões. A segunda fase, a mais importante, começou as 13:30 horas, com um ataque contra as alturas de Montese, Cota 888 e Montello. Houve intensa preparação de artilharia; foram empregados blindados e fumígenos norte-americanos. Com freqüência as tropas tinham de atravessar terreno minado. As 15 horas conseguiu-se penetrar em Montese. A auspiciosa notícia correu por todo o 4º Corpo, provocando jubilosas manifestações. Logo em seguida caiu Serreto, mas a resistência adversária continuou. Às 18 horas já estava escuro. Sabia-se que o inimigo possuía blindados e tropa em reserva, o que lhe possibilitava um contra-ataque para recuperar as posições de Montese e Serreto. Seus canhões e morteiros continuaram atirando durante toda a noite, aumentando nossas baixas.

 

Prosseguimento do ataque à região de Montese

 

Era imperativo continuar o ataque ao restante do maciço de Montese. De posse dessas alturas o inimigo detinha a posição-chave; sem ela, ver-se-ia obrigado a retrair para a margem esquerda do Panaro, a alguns quilômetros de distância. Previa-se uma resistência tenaz, até quase a exaustão. Os batalhões do escalão de ataque desembocaram às 9:45 horas, encontrando cerrada resistência. A luta prolongou-se mesmo durante a noite. Os fogos inimigos já haviam provocado mais de 100 baixas no escalão de ataque. A região de Montese continuava recebendo mais fogos que toda a frente do 4º Corpo.

 

A situação agravou-se na manhã do dia 15, quando o inimigo iniciou uma densa concentração de artilharia e morteiros, multiplicando o número de baixas. Face à situação, o General Mascarenhas de Morais deslocou-se para a frente, instalando o posto avançado de comando sobre os escombros de Montese. Sua observação pessoal e os esclarecimentos obtidos in loco permitiram-lhe concluir que a tropa estava desgastada, sendo conveniente transferir a operação para a manhã do dia seguinte.

 

Ao alvorecer de 17 de abril, chegaram ordens do 4º Corpo para sustar a operação. O comandante do V Exército pretendia lançar tropas de reserva através de uma brecha aberta na região de Tole, em outro setor, à direita de nossa Divisão, onde operava a 10ª Divisão de Montanha. Foi atribuída à Divisão brasileira manter a segurança do flanco esquerdo do 4º Corpo, tendo sido intensificada a atividade de patrulhamento.

 

Terminara o episódio mais sangrento vivido por nossas tropas em território italiano. Foram quatro jornadas sob os bombardeios mais pesados de toda a campanha. As armas brasileiras quebraram a resistência do inimigo e desmantelaram de forma definitiva o seu dispositivo defensivo.

 

Montese constituiu um objetivo de significativa importância na manobra ofensiva do 4º Corpo-de-Exército. Não foi apenas o combate mais sangrento travado pela FEB em toda a Itália. Foi também a conquista de uma região essencial, que veio a provocar um desequilíbrio no dispositivo adversário, facilitando o desembocar da tropa do V Exército na planície do Pó.

 

Foram entusiásticas as palavras do General Willis D. Crittenberger aos integrantes de seu estado-maior na manhã do dia 15:

 

“Na jornada de ontem, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho do seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade.”

 

Aproveitamento do êxito e perseguição do inimigo

 

Os alemães resistiram cinco jornadas, mas as vitórias dos aliados em Montese, Vergato, Tole, Monte Mosca, Monte Pero, Monte Sole, Monterumici e Monte Adone provocaram o completo desmantelamento de suas defesas na Linha Gengis Khan.

 

O dia 19 de abril marcou o início de uma nova etapa na ofensiva da primavera – o aproveitamento do êxito –, de que resultou a conquista do médio Panaro pela Divisão brasileira.

 

Durante a noite de 18 para 19 de abril, as tropas alemãs retraíram na direção oeste, operação que continuou na jornada de 19 de abril, tendo o inimigo transposto o rio Panaro, pressionado pela nossa tropa. Na noite de 19 para 20 de abril, a 1ª DIE recebeu do 4º Corpo a missão de continuar cobrindo o flanco oeste dessa grande-unidade, limpando a margem direita do rio Panaro até a região da cidade de Vignolia. Em fim de jornada nossas tropas cerraram contato com o inimigo na região de Zocca, que era um nó rodoviário e por isto um objetivo de vital importância. Encontraram obstinada resistência, mas avançaram apoiadas por blindados norte-americanos. Zocca foi ocupada e a 1ª DIE prosseguiu na direção de Vignola.

 

Essa oitava jornada ofensiva propiciou o esperado epílogo da batalha dos Apeninos – a ocupação de Bolonha por tropas do V Exército norte-americano e do VIII Exército britânico.

 

No fim do dia 22, quase todos os elementos de nossa divisão estavam na margem esquerda do Panaro. A 23, foram conquistadas Marano e Vignola. A população das localidades recebia nossas tropas com expansões de júbilo, aclamações e flores.

 

A ocupação de Vignola trouxe para a Divisão brasileira sensível alteração. Topograficamente representava a entrada na grande planície do Pó e o abandono dos acidentados Apeninos; taticamente era o término do aproveitamento do êxito.

 

Em Vignola nossa tropa iniciou a perseguição ao inimigo, abandonando a direção norte para infletir rumo a noroeste. Para facilitar o cumprimento da missão, a infantaria foi motorizada, ganhando maior velocidade. Em derrocada, o X e o XVI Exércitos alemães, batidos em região montanhosa, retiravam-se pela planície de forma desordenada e incapazes de opor uma resistência organizada no vale do Pó. Nos dois exércitos aliados (o V Exército americano e o VIII Exército britânico), ao contrário, imperava a certeza na vitória final. Havia uma firme determinação de bater todas as forças contrárias, inclusive as que constituíam o exército da Ligúria, antes mesmo que ocupassem o Pó ou o Adige.

 

Gigantesca nas dimensões e apresentando rapidez e agressividade por parte das peças de manobra envolvidas, a batalha do Pó foi decisiva em seus resultados, não obstante a ausência de ataques vigorosos contra posições organizadas ou cidades importantes.

 

Em apenas 12 jornadas, o 15º Grupo de Exércitos aliado desmantelou três exércitos inimigos que vinham atuando em território italiano. A participação da divisão brasileira no vale do rio Pó foi relevante. Na ala esquerda do dispositivo do V Exército norte-americano, além das ações de limpeza da área, recebeu a missão de manter a segurança do flanco sul do 4º Corpo e do V Exército, em face dos grandes efetivos inimigos que se retiravam do setor costeiro da Ligúria, em demanda do vale do Pó.

 

Rendição de Fornovo

 

Alcançou-se S. Paolo d’Enza, às margens do rio Enza, a 24 de abril; cumprindo ordens do 4º Corpo de Exército, a 1ª DIE reencetou, ao amanhecer de 26 de abril a perseguição ao inimigo na área compreendida entre os rios Enza e Taro. Neste mesmo dia, nosso Esquadrão de Reconhecimento estabeleceu contato com os alemães na região de Collecchio; a 27, unidades de infantaria eliminaram resistências inimigas.

 

Soube-se por informações de prisioneiros que grande coluna inimiga procurava por essa região atingir o vale do Pó. Lançaram-se então nessa direção elementos de infantaria com apoio de artilharia, que surpreenderam o adversário na estrada 62, rumo ao norte. Nossa tropa, em manobra de duplo envolvimento, atingiu rapidamente as cercanias de Fornovo.

 

O comandante da tropa brasileira que operava na região confiou ao vigário de Neviano di Rossi, Padre Alexandro Cavalli, o papel de emissário junto às tropas alemãs de Respicio, com o fim de levar-lhes o ultimato de rendição incondicional, de acordo com as convenções internacionais. Era o seguinte o texto do documento:

 

“Ao comando da tropa sitiada na região de Fornovo di Taro: Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército brasileiro que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o comandante da vanguarda da divisão brasileira que vos cerca. Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta ao presente ultimato. (a) Nelson de Melo, Coronel Cmt.”

 

A resposta veio nos seguintes termos:

 

“A resposta seguirá após ser fornecida alguma indicação do comando superior. (a) Major Kuhn, Ch EM/148ª DI.”

 

O comando brasileiro decidiu atacar, já que a resposta alemã tinha caráter protelatório. A luta foi violenta durante a tarde, mas declinou em toda a frente ao cair da noite. As unidades preparavam-se para manter as posições conquistadas quando, bandeira branca em punho, apareceu o Major W. Kuhn acompanhado de uma escolta. Nos entendimentos ficou acertado que o fogo cessaria às 5:20 horas e que a rendição começaria às 12 horas.

 

À meia-noite, muito antes de o Major Kuhn regressar ao seu quartel-general, um batalhão de infantaria alemão cruzou nossas linhas em Respício e, ao alvorecer, o 5º Batalhão de Montanha se apresentou nessa mesma região, antecedendo, portanto, os entendimentos de cúpula.

 

À testa de uma coluna motorizada surgiu às 13 horas, tendo à frente as ambulâncias que transportavam os feridos, o 361º Batalhão de Carros de Combate da 90ª Divisão Panzer. Em meio à movimentação reinante nos postos de coleta de prisioneiros, às 18:30 horas, impecavelmente uniformizado e acompanhado de seu estado-maior (18 oficiais) apresentou-se o General Mario Carloni, comandante da Divisão Bersaglieri Italia. Após pequena pausa nos trabalhos de rendição apareceu o grosso da 148ª Divisão de Infantaria, seguida do 4º Batalhão de Montanha e de um batalhão de Camisas Negras italiano. Finalmente, às 18 horas chegou o comandante da 148ª Divisão de Infantaria, General Otto Fretter Pico, com 31 oficiais de seu estado-maior, todos com muito bom aspecto militar. O comandante alemão foi recebido pelo General Mascarenhas, que o fez apresentar ao quartel-general do V Exército, escoltado pelo General Falconière da Cunha. Encerrava-se assim a rendição da 148ª DI, dos remanescentes da 90ª Divisão Panzer e da Divisão Bersaglieri Italia. Eram 14.779 homens, cerca de quatro mil animais e 2.500 viaturas, das quais mil motorizadas.

 

Quando a FEB entrou em linha, o regimento alemão que então defendia Castelnuovo de Garfagnana aprisionara uns vinte e tantos brasileiros e os fizera desfilar pelas ruas da cidade, em estranha reedição de um costume bárbaro. Alguns soldados brasileiros chegaram a ser agredidos. Este mesmo regimento rendeu-se a nós em Fornovo e nenhum alemão foi molestado pelos nossos soldados.

 

O General Mark Clark, comandante do 25º Grupo de Exércitos, a respeito da manobra de nossa divisão expedicionária no vale do Taro, declarou que “foi magnífico final de uma atuação magnífica”.

 

A nossa contribuição na fase derradeira dessa gigantesca batalha consubstanciou-se nas vitórias alcançadas nos combates de Montese, Zocca, Marano do Panaro e, finalmente, Collecchio e Fornovo, sendo que a última representa, sem dúvida, a mais brilhante vitória da FEB na campanha.

 

Vitória final

 

Enquanto se ultimava em Fornovo a rendição da, 148ª Divisão alemã, a situação político-militar na Itália evoluía rapidamente.

 

As comunicações estavam então difíceis, porque nossa divisão atuava em larga frente, com a velocidade de deslocamento muito aumentada pelos transportes motorizados. Não se tinha conhecimento pleno do que estava efetivamente acontecendo nos escalões superiores, mas tudo prenunciava um colapso total do inimigo, a qualquer momento.

 

A 30 de abril, a 1ª DIE recebeu a missão de ocupar a região de Alessandria e ficar em condições de progredir na direção norte, continuando a cortar a retirada dos elementos vindos do sul.

 

Em Asti foi estabelecido contato com a 92ª Divisão norte-americana. No dia seguinte ocupou-se a margem sul do Pó, região ao norte de Alessandria, e ultrapassou-se a cidade de Turim, que seria ocupada mais tarde. No dia 2 de maio, uma patrulha estabeleceu contato em Suza com a 27ª Divisão francesa.

 

A sorte do governo fascista já estava selada: os partigiani exigiam rendição incondicional. Mussolini e alguns elementos de seu governo fugiram mas foram presos e mortos (28 de abril).

 

A luta ainda continuava no resto da Europa. A vitória final ocorreu em 8 de maio de 1945, após a queda de Berlim.

 

A FEB participou com realce na eliminação de dois exércitos alemães (XVI Exército e Exército da Ligúria) que operavam no setor do V Exército norte-americano. Sobressaiu-se também por ter sido a primeira tropa aliada que entrou em ligação com o Exército francês na fronteira franco-italiana, face ao ímpeto de seu avanço, no final da ofensiva da primavera.

 

Iniciava-se agora uma nova fase para os brasileiros, a da ocupação militar, que se estendeu de 3 de maio a 3 de junho. Depois a tropa se deslocou por escalões para o sul da Itália, onde aguardou o embarque para o Brasil. O primeiro escalão deixou o porto de Nápoles a 6 de junho e o último a 19 de setembro.

 

Os líderes militares norte-americanos demonstraram, em várias ocasiões, o seu contentamento pela atuação da FEB. Basta lembrarmos que desejaram que os brasileiros se mantivessem na Europa, por mais tempo, integrando as forças de ocupação. Entretanto, o governo brasileiro não se entusiasmou pela proposta.

 

Encerrava-se assim uma das mais brilhantes páginas de nossa história militar. Na eliminação do nazi-fascismo a Divisão brasileira desempenhou papel de incontestável relevo entre as forças aliadas. Não se deve esquecer, no entanto, que o esforço de guerra do Brasil reflete o resultado da conjugação de ações continuadas das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica.

 

Significado da atuação da FEB

 

Os feitos e vitórias da FEB hão de sobreviver no coração dos brasileiros, como síntese do valor de nossa gente e símbolo de sua vocação democrática. A participação do Exército na campanha da Itália, lado a lado com o norte-americano, aproximou ainda mais as duas nações, revigorando os vínculos de fraternidade continental.

 

Esse conflito mundial deu também maior solidez à amizade que sempre uniu soldados e marinheiros. Revigoraram-se da mesma forma os laços com a Força Aérea Brasileira, que, seja no patrulhamento de nosso litoral, seja nos céus da Itália, executou importantes missões para o resultado final da luta.

 

Para a História do Exército, a experiência da FEB mostrou-se notável. Veteranos da FEB, que permaneceram na ativa, introduziram as lições da guerra nos estudos da Escola de Estado-Maior e, em menor escala, na Academia Militar das Agulhas Negras e na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais.

 

APÊNDICE DOCUMENTAL

 

Convênio Políco-Militar entre os Estados Unidos do Brasil e os Estados Unidos da América redigido de acordo com as modificações apresentadas pelo Governo norte-americano, em 27 de maio de 1942

 

Considerando

 

Que os Estados Unidos de Brasil e os Estados Unidos da América concluíram, em 18 de outubro de 1941, um acordo relativo ao fornecimento de informações e artigos de defesa por parte de qualquer dos dois países ao outro, no sentido da estreita cooperação para a segurança do continente;

 

que no decurso da aplicação desse acordo surgiram situações indicadoras de necessidade de modificá-lo com vantagens para ambos;

 

e mais, que na Terceira Reunião dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas foi aprovada uma resolução estabelecendo que esta cooperação, para proteção de ambos os países e do Continente, deveria continuar até desaparecerem os efeitos do atual conflito;

 

Acordaram estabelecer as seguintes normas e condições para regularem o concurso de suas forças militares e econômicas na defesa comum do continente americano.

 

Artigo I

 

a) Ficam criadas duas comissões técnico-militares mistas brasileiro-americanas: uma no Brasil e outra nos Estados Unidos da América. Estas comissões serão compostas do pessoal do Exército, da Marinha e das Forças Aéreas de ambos os países.

 

b) Estas comissões ficam encarregadas da elaboração de planos minuciosos e de estabelecer acordos entre os Estados Maiores, necessários à defesa mútua. Esses planos abrangerão, entre outros assuntos e medidas, os acordos sobre comando nas zonas de operações e, de um modo geral, as responsabilidades em quaisquer teatros de operações que possam ser previstos.

 

c) Em caso de mudança na situação estratégica, serão feitas recomendações aos Governos de ambos os países sobre as amplificações ou modificações desses planos e sobre as medidas necessárias a serem tomadas para sua execução eficiente.

 

 

Artigo II

 

O emprego das forças brasileiras será dentro de seu território; entretanto, em casos especiais, mediante decisão do Governo do Brasil, poderão ser destacadas para outros pontos do continente, de cuja segurança e defesa tenham de participar.

 

Artigo III

 

No caso de ataque ao território nacional por forças extracontinentais, os Estados Unidos da América darão o auxílio imediato de suas forças para a defesa do Brasil. No caso de ameaça de ataque, os Governos deverão decidir sobre as medidas preventivas a serem adotadas, baseadas nos planos preparados pelas comissões mistas.

 

Em todos os casos, as Força Armadas norte-americanas só poderão ficar estacionadas em território nacional do Brasil a pedido especial do Governo brasileiro.

 

Artigo IV

 

As bases navais e aéreas no território brasileiro poderão ser guarnecidas por forças dos Estados Unidos da América, a pedido do Governo brasileiro, ficando as condições de comando e responsabilidades nas zonas de operações, a serem reguladas pelas comissões mistas.

 

Artigo V

 

O Governo brasileiro, por solicitação do Governo norte-americano, poderá permitir o estacionamento de formações ou grupos de técnicos e especialistas norte-americanos, em pontos do território brasileiro, como auxiliares das forças militares dos Estados Unidos da América em trânsito ou em operações, e bem assim o uso de suas instalações navais e aeronáuticas.

 

Artigo VI

 

O Governo brasileiro facultará ao Governo norte-americano a construção de depósitos e instalações, inclusive para o pessoal, assim como a organização de que carecem em território nacional, para o reaprovisionamento e auxílio de suas formações militares.

 

Artigo VII

 

No caso de agressão ao Brasil por outra República americana que, na opinião do Governo dos Estados Unidos da América, seja simpática às potências do Eixo ou por eles instigadas, os Estados Unidos da América fornecerão ao Brasil a assistência necessária à sua segurança nacional e à manutenção no poder do presente Governo. Essa assistência far-se-á sob a forma de fornecimento de material bélico e, se houver pedido formal do Governo do Brasil, ela se converterá também em cooperação das suas Forças Armadas.

 

Artigo VIII

 

O Brasil se compromete a desenvolver o mais rapidamente possível, todos os elementos de cooperação de que é capaz, para assegurar sua defesa e a do continente na execução deste convênio, promovendo principalmente:

 

a) a organização imediata de bases aéreas e navais atuais e as que vierem a ser necessárias a operações de guerra;

 

b) a organização da defesa da costa e das ilhas não costeiras;

 

c) a mobilização das formações de guerra previstas para as forças armadas do país e, de primeira urgência, nas zonas estratégicas do Norte, do Nordeste e do Rio de janeiro;

 

d) a organização das vias de comunicações ferro-rodoviárias indispensáveis ao jogo das forças e das intercomunicações das bases navais e aéreas;

 

e) a mobilização e ampliação de sua indústria bélica, inclusive construções navais e aeronáuticas.

 

Artigo IX

 

O Brasil adotará medidas para manter inalterada a ordem interna, por maneira a facilitar a execução das obrigações decorrentes desse convênio, e também contra a sabotagem, propaganda e atividade subversivas contrárias à segurança continental.

 

Artigo X

 

O Brasil intensificará o serviço de saneamento nas prováveis zonas de operações, de acordo com as conclusões da comissão mista brasileiro-americana sobre a matéria, e fará ainda a profilaxia dos navios e aeronaves americanas e de seus aliados.

 

Artigo XI

 

O Brasil fomentará e ampliará as suas indústrias agrícolas, fabris e extrativas de modo a fornecer aos Estados Unidos da América, em grau de prioridade, as matérias-primas e produtos julgados necessários.

 

Artigo XII

 

Em território brasileiro, as normas legais, civis e militares do Brasil prevalecerão sempre que estiverem em jogo os interesses de uma ou outra parte.

Parágrafo único – Nas relações internas das unidades ou formações, subsistirão as leis e os regulamentos dos respectivos países.

 

Artigo XIII

 

Os Estados Unidos da América facilitarão imediatamente a aquisição para o Brasil de material já requisitado, do material bélico que for necessário para completar as suas formações de guerra e, ainda, os materiais indispensáveis para o desenvolvimento de suas indústrias militares e das suas redes ferro-rodoviárias nas zonas prováveis de operação.

 

Artigo XIV

 

Em qualquer caso e desde o presente momento, os Estados Unidos da América ficarão encarregados da manutenção das comunicações marítimas entre os países, com a colaboração do Brasil, sob as condições acima especificadas.

 

Artigo XV

 

No caso de instalações e obras sugeridas pela comissão mista do Nordeste e outras que se fizerem mister para os fins deste convênio, as despesas correrão por conta de cada país quando forem de seu exclusivo interesse, e serão financiadas eqüitativamente por ambos os Governos quando se destinarem ao uso comum.

 

Artigo XVI

 

Os Estados Unidos da América prestarão seu auxílio técnico e financeiro para o incremento da produção de matérias-primas e produtos brasileiros de que carecem os dois Governos para fins deste convênio.

 

Artigo XVII

 

Os Governos do Brasil e dos Estados Unidos da América facilitarão aos militares de suas forças de terra, mar e ar, estágios e cursos em todas as suas atividades militares para os fins deste convênio.

 

Artigo XVIII

 

As Missões norte-americanas (naval, aérea e de artilharia de costa), junto às forças militares do Brasil, sem prejuízo de seus contratos, deverão ajustar-se a: normas e fins deste convênio e podem ser utilizadas para auxiliarem a comissão mista reunida no Brasil.

 

Artigo XIX

 

O presente acordo se conservará secreto até decisão em contrário por ambos os Governos.

 

Artigo XX

 

O presente convênio entrará em vigor após a troca de comunicação de aprovação das duas partes contratantes que, em concomitância com a sua aprovação, nomearão as comissões técnico-militares, de que trata o artigo primeiro.

 

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