Dos vírus microscópicos aos maiores animais do planeta, incluindo os humanos, a biodiversidade abarca todos os seres vivos e sempre levanta muitas questões conceituais. Por isso, a Unesco preparou uma exposição sobre o tema, “Biodiversidade é a vida”

 

1 – O que é biodiversidade?

Biodiversidade é a variedade de vida na Terra. É composta por todos os seres vivos e engloba desde vírus microscópicos até os maiores animais do planeta. Humanos são parte integrante da biodiversidade.

A biodiversidade é composta por todos os genes, espécies, ecossistemas e paisagens que integram nosso mundo. Esses elementos interagem constantemente em todos os níveis. Cada ser vivo tem uma única composição genética. Os seres humanos têm usado essa variação genética para produzir milhares de variedades de culturas de alimentos e de animais domesticados.

A biodiversidade envolve comunidades e relacionamentos. Todos os seres vivos compõem ecossistemas dinâmicos (por exemplo, florestas, lavouras, lagos) que integram uma paisagem. Nesse ambiente, suas vidas se entrelaçam numa teia de relações caracterizadas por cooperação, competição, predação, simbiose ou parasitismo. Esse sistema interligado e delicadamente equilibrado fornece alimento e abrigo, regulação de energia e reprodução. Cada membro da comunidade tem um papel essencial para manter essa rede em equilíbrio.

2 – Onde está a biodiversidade?

Em toda a Terra, de ambientes extremos como os polos a rochas sob a superfície da Terra ou às nuvens mais altas. Há diferentes padrões de biodiversidade ao redor do mundo, compostos de reinos biogeográficos reconhecidos com uma história evolutiva e climática partilhada.

Calcula-se que haja 13 milhões de espécies na Terra (há estimativas que variam de 2 milhões a 100 milhões de espécies!), mas os cientistas identificaram apenas em torno de 1,75 milhão até agora. Apenas 16 mil novas espécies são descritas a cada ano. Somente alguns grupos são bem documentados, entre eles mamíferos, aves, anfíbios e coníferas.

Certas regiões geográficas são centros tanto de alta diversidade de espécies (megadiversidade) como de endemismo (espécies exclusivas para uma determinada localização). Esses 34 hotspots representam apenas 2,3% da superfície da Terra, mas concentram 50% das plantas e 42% dos vertebrados do mundo. Frequentemente isolados ou concentrados em regiões de topografia variável (ilhas, montanhas, penínsulas), eles são particularmente vulneráveis.

3 – Como a biodiversidade nos serve?

Os ecossistemas fornecem-nos:

> Serviços de provisionamento – Eles nos suprem de elementos básicos para a vida, incluindo alimentação, água potável, madeira, fibras, recursos genéticos, medicamentos, produtos decorativos e culturais.

> Serviços de regulação – Ajudam a manter a qualidade do ar, a purificar a água, a tratar resíduos e a nos proteger de perigos naturais, erosão, pragas e doenças. Por exemplo, a biodiversidade dos ecossistemas de áreas úmidas auxilia na purificação natural da água; as árvores nas cidades reduzem a poluição do ar.

> Serviços de apoio – Processos fundamentais, mas muitas vezes invisíveis, dos quais todos os outros serviços do ecossistema dependem. Por exemplo, a produção de alimentos depende da formação do solo, que por sua vez depende das condições climáticas, bem como de processos químicos e biológicos.

> Serviços culturais – Os benefícios não materiais que as pessoas obtêm dos ecossistemas por meio de enriquecimento espiritual, reflexão, recreação e assim por diante. A biodiversidade moldou lendas e inspirou culturas, história e artes.

4 – Por que os cientistas falam de uma sexta grande extinção?

A partir do registro fóssil, sabemos de cinco grandes extinções que afetaram a biodiversidade da Terra. Nos últimos 50 anos, a atividade humana aumentou a taxa de extinção natural, que estaria de 100 a 1.000 vezes maior do que o registro geológico. Isso é muito maior do que a taxa relativa ao surgimento de novas espécies, resultando em uma perda líquida de biodiversidade.

5 – Por que estamos perdendo a biodiversidade?

Estamos perdendo espécies a um ritmo alarmante. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) observa que uma espécie de ave em oito, um em cada quatro mamíferos, uma entre três coníferas, um de três anfíbios e seis de sete tartarugas marinhas estão ameaçados de extinção. Além disso, 75% da diversidade genética das culturas agrícolas foi perdida e 75% dos pescados do mundo estão totalmente explorados ou superexplorados.

As causas indiretas da perda de biodiversidade incluem o crescimento da população e o desenvolvimento econômico. As causas diretas são:

> Perda do hábitat – Pode ocorrer naturalmente, através de secas, doenças, incêndios, vulcões, terremotos e mudanças de temperatura ou precipitação sazonal. Mas são as mudanças no uso da terra pelas atividades humanas os principais motores da fragmentação, da degradação e da perda do hábitat. A agricultura é geralmente a culpada, mas também constam da lista a construção de infraestrutura, a exploração madeireira, a mineração e a urbanização rápida. As lavouras representam mais de 25% da superfície terrestre, excluindo a Antártica.

Nos últimos tempos, as florestas da Terra perderam 40% de sua área; as áreas úmidas, 50%; os recifes de coral, 20%; os mangues, 35%. A pesca de profundidade tem causado danos consideráveis ao leito marinho, com a perda potencial de milhões de espécies.

> Alterações climáticas – A distribuição dos animais selvagens e domesticados e das plantas é sensível à temperatura e à umidade. Por exemplo, o aquecimento do mar e as mudanças na química da água em razão do sequestro de carbono natural poderiam fazer a Grande Barreira de Corais da Austrália perder até 95% de seu coral vivo por volta de 2050; na África, os elefantes se tornaram altamente vulneráveis aos longos períodos de seca.

> Espécies exóticas invasoras – A introdução, acidental ou intencional, de espécies invasoras de plantas, como o aguapé no Lago Vitória, na África, ou de animais como o esquilo cinza na Europa, pode ter um impacto devastador sobre as espécies naturais e cultivadas e os ecossistemas, afora a economia.

Segunda razão mais importante da perda de biodiversidade, essas espécies interferem na teia de relações e distorcem os serviços prestados pelo ecossistema, especialmente em ecossistemas isolados. A taxa de introdução de espécies exóticas e os riscos associados a elas se multiplicaram nos últimos anos, em razão do crescimento da população humana e do aumento das viagens, do comércio e do turismo.

> Sobre-exploração e poluição – A caça insustentável, a pesca e a extração de matérias-primas estão aumentando a pegada ecológica, uma medida da demanda humana pelos ecossistemas da Terra. A poluição ocorre quando os seres humanos emitem mais resíduos do que o ecossistema pode absorver. Gases-estufa, fertilizantes, resíduos agrícolas e tóxicos, todos perturbam interações e impactam a biodiversidade.

6 – Por que conservar a biodiversidade é importante para a economia e o desenvolvimento?

O relatório The Economics of Ecosystems and Biodiversity (A Economia dos Ecossistemas e a Biodiversidade), de 2009, calcula que o valor total da biodiversidade e de seus serviços é de US$ 33 trilhões por ano, o dobro do valor da economia mundial.

A “economia verde” inclui indústrias, tais como painéis solares e turbinas eólicas, formas de transporte verde, como veículos movidos a hidrogênio, que emitem apenas vapor d’água, armazenamento de carbono no subsolo, práticas ecológicas de construção, agricultura orgânica e ecoturismo.

A biônica é um campo científico crescente, no qual engenheiros, cientistas e arquitetos estão se voltando para a biodiversidade em busca de inspiração, de soluções inovadoras e sustentáveis para problemas tecnicamente desafiadores.

A maioria das pessoas mais pobres do mundo, em especial nas zonas rurais, depende diretamente da biodiversidade para pelo menos 90% de suas necessidades. Produtos vegetais e animais são comercializados para se obter itens básicos como sabão, roupas e material escolar. A biodiversidade é também a base sobre a qual se constroem indústrias locais.

As Metas do Milênio foram estabelecidas pela ONU em 2000 para promover o desenvolvimento, até 2015, em oito áreas específicas do bem-estar humano. Garantir a sustentabilidade ambiental é a Meta 7 e inclui um objetivo específico de redução significativa na taxa de perda de biodiversidade até 2010 – o 2010 Biodiversity Target. A conservação da biodiversidade é também um fator importante na obtenção dos outros objetivos de desenvolvimento, tais como a erradicação da pobreza extrema e da fome e a igualdade de gênero.

7 – Como a biodiversidade está ligada à diversidade cultural?

Desde que surgiram, os seres humanos modelaram e administraram a biodiversidade e o mundo natural, contribuindo para a diversidade de suas espécies, ecossistemas e paisagens. As culturas, por sua vez, foram moldadas por seus ambientes naturais.

Hoje, as comunidades indígenas e locais frequentemente desempenham um papel fundamental na conser vação da biodiversidade, mantendo sistemas complexos de conhecimento e prática. Seus territórios, muitas vezes em áreas protegidas, estão entre os mais biologicamente diversos do planeta: cobrem até 24% da superfície terrestre e contêm 80% dos ecossistemas ainda saudáveis.

8 – O que a comunidade internacional pode fazer para barrar a perda de biodiversidade?

> Desenvolver instrumentos internacionais – Na Eco-92, no Rio de Janeiro, líderes mundiais concordaram a respeito da necessidade de uma estratégia global e dos instrumentos jurídicos para atingir o desenvolvimento sustentável. Um desses instrumentos foi a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), que tem três objetivos principais: conservação da diversidade biológica; uso sustentável de seus componentes; e partilha justa e equitativa dos benefícios resultantes do uso dos recursos genéticos.

Hoje, mais de 190 países ratificaram a CDB. Em 2000, a convenção aprovou o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança para proteger a biodiversidade dos riscos apresentados pelos organismos vivos modificados. Em outubro deste ano, os governos concordaram com o novo plano estratégico para a CDB na Conferência das Partes, realizada em Nagoia (Japão).

Inspirados pelo sucesso do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas na sensibilização sobre as alterações no clima, os governos estão considerando agora a ideia de criar uma plataforma intergovernamental sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos (IPBES) para avaliar a perda da biodiversidade e seu impacto sobre os serviços do ecossistema e o bem-estar humano, bem como apoiar a tomada de decisões ligadas ao tema.

> Finanças e biodiversidade – Estimativas da diferença entre o financiamento atual e o que deveria ser feito para atingir os três objetivos da CDB e o 2010 Biodiversity Target vão de US$ 10 bilhões a US$ 50 bilhões por ano.

> Expandir a cobertura de áreas protegidas – Áreasprotegidas são refúgios para a biodiversidade. Englobam trechos de florestas, montanhas, pântanos, pradarias, desertos, lagos, rios, recifes de corais e oceanos que são gerenciados para manter a biodiversidade. A maioria das áreas protegidas é gerida para usos múltiplos, porém compatíveis, incluindo conservação da biodiversidade, recreação ao ar livre, turismo, proteção de bacias hidrográficas, manejo florestal, caça e pesca sustentáveis, pesquisa científica e educação ambiental.

Hoje, aproximadamente 1,1 bilhão de pessoas dependem de áreas protegidas para sua subsistência. Há mais de 108 mil dessas áreas no mundo, ocupando 12% da superfície terrestre e 1% do mar. A IUCN espera ampliar essa cobertura, nos dois casos, para 15%.

> Promover o uso sustentável da biodiversidade – A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês) estima que pelo menos 40% da economia global se baseia na utilização de recursos biológicos. O uso sustentável dos recursos biológicos renováveis é a melhor forma de garantir a conservação da diversidade biológica. Além disso, a conservação do capital biológico pode gerar renda.

> Garantir uma repartição justa e equitativa dos benefícios – Extraídos de plantas, animais, fungos ou microrganismos, os recursos genéticos da Terra podem ser usados para gerar enormes benefícios, tais como novos remédios. Os benefícios monetários incluem pagamentos de royalties, taxas de acesso ou propriedade conjunta dos direitos de propriedade intelectual. Os benefícios não monetários incluem formação e educação, resultados de pesquisas e transferência de tecnologia.

O terceiro objetivo da CDB, as Diretrizes de Bonn e o regime internacional sobre acesso e partilha de benefícios que deverá ser aprovado ainda este ano encorajarão todos os usuários e fornecedores de recursos genéticos a compartilhar o acesso a – e a se beneficiar de – sua utilização de forma equitativa e justa. Isso inclui a busca de consentimento prévio e a negociação dos termos e condições com o fornecedor.