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    Arcadismo e Cartas Chilenas

     

    As “Cartas Chilenas” são um poema satírico de Tomás Antônio Gonzaga, que viria a ser um dos cabeças da Inconfidência Mineira. São treze cartas em versos, que teriam sido escritas por um tal de Critilo a seu amigo Doroteu, nas quais se critica os desmandos do Fanfarrão Minésio, governador da capitania do Chile. Trata-se apenas de um recurso de Gonzaga para driblar a censura da administração colonial. O verdadeiro alvo das críticas é Luís da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais de 1783 a 1788.

    A oitava carta, transcrita em seguida integralmente, conforme versão da Biblioteca Virtual da USP, denuncia que Meneses usava em benefício próprio o sistema de contratos – concessão que se fazia, trienalmente, a um particular para que ele efetuasse a cobrança dos impostos em nome da Coroa. Teoricamente, os contratos deveriam ser disputados em concorrências públicas, mas, como se vê, na Vila Rica do final do século XVIII, os governantes corruptos já conheciam os caminhos das pedras para driblar a lei, roubar os cofres públicos e encher as burras de dinheiro. Por algo, somos o que somos …

    Preso em 1789, por participar da Inconfidência Mineira, Gonzaga foi condenado a dez anos de degredo em Moçambique, onde veio a falecer em 1809.

    Em que se trata da venda dos despachos e contratos
    Os grandes, Doroteu, da nossa Espanha
    Têm diversas herdades: uma delas
    Dão trigo, dão centeio e dão cevada,
    As outras têm cascatas e pomares,
    Com outras muitas peças, que só servem,
    Nos calmosos verões, de algum recreio.
    Assim os generais da nossa Chile
    Têm diversas fazendas: numas passam
    As horas de descanso, as outras geram
    Os milhos, os feijões e os úteis frutos
    Que podem sustentar as grandes casas.
    As quintas, Doroteu, que mais lhes rendem,
    Abertas nunca são do torto arado.
    Quer chova de contínuo, quer se gretem
    As terras, ao rigor do sol intenso,
    Sempre geram mais frutos do que as outras,
    No ano em que lhes corre, ao próprio, o tempo.
    Estas quintas, amigo, não produzem
    Em certas estações, produzem sempre,
    Que os nossos generais, tomando a foice,
    Vão fazer, nas searas, a colheita.
    Produzem, que inda é mais, sem que os bons chefes
    Se cansem com amanhos, nem, ainda,
    Com lançarem, nos sulcos, as sementes.
    Agora dirás tu, de assombro cheio:
    “Que ditosas campinas! Dessa sorte
    Só pintam os Elíseos os poetas.”
    Amigo Doroteu, és pouco esperto;
    As fazendas que pinto não são dessas
    Que têm, para as culturas, largos campos
    E virgens matarias, cujos troncos
    Levantam, sobre as nuvens, grossos ramos.
    Não são, não são fazendas onde paste
    O lanudo carneiro e a gorda vaca,
    A vaca, que salpica as brandas ervas
    Com o leite encorpado, que lhe escorre
    Das lisas tetas, que no chão lhe arrastam.
    Não são, enfim, herdades, onde as louras
    Zunidoras abelhas de mil castas,
    Nos côncavos das árvores já velhas,
    Que bálsamos destilam, escondidas,
    Fabriquem rumas de gostosos favos.
    Estas quintas são quintas só no nome,
    Pois são os dois contratos, que utilizam
    Aos chefes, inda mais que ao próprio Estado.

    Cada triênio, pois, os nossos chefes
    Levantam duas quintas ou berdades,
    E, quando o lavrador da terra inculta
    Despende o seu dinheiro, no princípio,
    Fazendo levantar, de paus robustos,
    As casas de vivenda e, junto delas,
    Em volta de um terreiro, as vis senzalas,
    Os nossos generais, pelo contrário,
    Quando estas quintas fazem, logo embolsam
    Uma grande porção de louras barras.

    A primeira fazenda, que o bom chefe
    Ergueu nestas campinas, foi a grande
    Herdade, que arrendou ao seu Marquésio.
    As línguas depravadas espalharam
    Que, para o tal Marquésio entrar de posse,
    Largara ao grande chefe, só de luvas,
    Uns trinta mil cruzados; bagatela!
    Os mesmos maldizentes acrescentam
    Que o pançudo Robério fora aquele
    Que fez de corretor no tal contrato.
    Amigo Doroteu, eu tremo e fujo
    De encarregar minha alma. O bom Vergílio
    Talvez, talvez que aflito se revolva,
    No meio da fogueira devorante,
    Por dizer que adorara, ao pio Enéias,
    Uma casta rainha, cujos ossos
    Estavam no sepulcro, já mirrados,
    Havia coisa de trezentos anos.
    Eu não te afirmo, pois, que se fizesse
    A venda vergonhosa; só te afirmo
    Que o mundo assim o julga, e que esta fama
    Não deixa de firmar-se em bons indícios.
    As leis do nosso reino não consentem
    Que os chefes dêem contratos, contra os votos
    Dos retos deputados que organizam
    A Junta de Fazenda, e o nosso chefe
    Mandou arrematar, ao seu Marquésio,
    O contrato maior, sem ter um voto
    Que favorável fosse aos seus projetos.
    As mesmas santas leis jamais concedem
    Que possa arrematar-se algum contrato
    Ao rico lançador, se houver na praça
    Um só competidor de mais abono;
    E o nosso general mandou se desse
    O ramo ao lançador, que apenas tinha
    Uns vinte mil cruzados, em palavra,
    Deixando preterido outro sujeito
    De muito mais abono, e a quem devia
    Um grosso cabedal o régio erário.
    Mal acaba Marquésio o seu triênio,
    Outro novo triênio lhe arremata,
    Sem que um membro da Junta em tal convenha;
    E, tendo o tal Marquésio, no contrato,
    Perdido grandes somas, lhe dispensa
    Outras fianças dar à nova renda.
    Amigo Doroteu, o nosso chefe,
    Que procura tirar conveniência
    Dos pequenos negócios e despachos,
    Daria este contrato ao bom Marquésio,
    Este grande contrato, sem que houvesse,
    De paga equivalente, ajuste expresso?
    Amigo Doroteu, se não sou sábio,
    Não sou, também, tão néscio, que nem saiba
    Das premissas tirar as conseqüências.
    Agora dirás tu: “Se o patrimônio
    De Marquésio consiste, como afirmas,
    Em vinte mil cruzados, em palavra,
    Como, de luvas, deu ao chefe os trinta?”
    Amigo Doroteu, estou pilhado;
    A palavra, que sai da boca fora,
    É corno a calhoada, que se atira,
    Que já não tem remédio; paciência.
    Eu as ervas arranco, e, desde agora,
    Contigo falarei com mais cautela.
    Mas que vejo? Tu ris-te? Acaso pensas
    Que me tens apanhado na verdade?
    A mim nunca apanharam os capuchos,
    Quando, no raso assento, defendia
    Que a natureza não tolera o vácuo,
    Que os cheiros são ocultas entidades,
    Com outras mil questões da mesma classe.
    E tu, meu doce amigo, pretendias
    Convencer-me em matéria em que dar posso
    A todos, de partido a sota e o basto
    Desiste, Doroteu, do louco intento,
    Faze uma grande cruz na lisa testa,
    Dá figas ao demônio, que te atenta.
    Ora ouve a solução desse argumento:
    Bem que pingante seja quem remata
    Este grande contrato, mercadeja
    Com perto de um milhão; por isso todos
    lhe emprestam prontamente os seus dinheiros.

    Os chefes, Doroteu, que só procuram
    De barras entulhar as fortes burras,
    Desfrutam juntamente as mais fazendas,
    Que os seus antecessores levantaram.
    Nem deixam descansar as férteis terras
    Enquanto não as põem em sambambaias.
    Aqui agora tens, meus Silverino,
    O teu próprio lugar. Tu és honrado,
    E prezas, como eu prezo, a sã verdade;
    Por isso nos confessas que tu ganhas
    A graça deste chefe, porque envias,
    Pela mão de Matúsio, seu agente
    Em todos os trimestres, as mesadas.
    Eu sei, meu Silverino, que quem vive
    Na nossa infeliz Chile, não te impugna
    Tão notória verdade. Porém deve
    Correr estranhos climas esta história,
    E, como tu não vás, também, com ela,
    É justo que lhe ponha algumas provas.

    A sábia lei do reino quer e manda
    Que os nossos devedores não se prendam.
    Responde agora tu, por que motivo
    Concede o grande chefe que tu prendas
    A quantos miseráveis te deverem?
    Porque, meu Silverino? Porque largas,
    Porque mandas presentes, mais dinheiro.

    As mesmas leis do reino também vedam
    Que possa ser juiz a própria parte.
    Responde agora mais, por que princípio
    Consente o nosso chefe, que tu sejas
    O mesmo que encorrente a quem não paga?
    Porque, meu Silverino? Porque largas,
    Porque mandas presentes, mais dinheiro.

    Os sábios generais reprimir devem
    Do atrevido vassalo as insolências;
    Tu metes homens livres no teu tronco,
    Tu mandas castigá-los, como negros;
    Tu zombas da justiça, tu a prendes;
    Tu passas portais ordenando
    Que com certas pessoas não se entenda.
    Porque, por que razão o nosso chefe
    Consente que tu faças tanto insulto,
    Sendo um touro, que parte ao leve aceno?
    Porque, meu Silverino? Porque largas
    Porque mandas presentes, mais dinheiro.

    A lei do teu contrato não faculta
    Que possas aplicar aos teus negócios
    Os públicos dinheiros. Tu, com eles,
    Pagaste aos teus credores grandes somas!
    Ordena a sábia Junta, que dês logo
    Da tua comissão estreita conta;
    O chefe não assina a portaria,
    Não quer que se descubra a ladroeira,
    Porque te favorece, ainda à custa
    Dos régios interesses, quando finge
    Que os zela muito mais que as próprias rendas.
    Porque, meu Silverino? Porque largas,
    Porque mandas presentes, mais dinheiro.

    Apenas apareces… Mas não posso
    Só contigo gastar papel e tempo.
    Eu já te deixo em paz, roubando o mundo,
    E passo a relatar, ao caro amigo,
    Os estranhos sucessos que ainda faltam;
    Nem todos lhe direi, pois são imensos.

    Pretende, Doroteu, o nosso chefe
    Mostrar um grande zelo nas cobranças
    Do imenso cabedal que todo o povo,
    Aos cofres do monarca, está devendo.
    Envia bons soldados às comarcas,
    E manda-lhe que cobrem, ou que metam,
    A quantos não pagarem, nas cadeias.
    Não quero, Doroteu, lembrar-me agora
    Das leis do nosso augusto; estou cansado
    De confrontar os fatos deste chefe
    Com as disposições do são direito;
    Por isso pintarei, prezado amigo,
    Somente a confusão e a grã desordem
    Em que, a todos, nos pôs tão nova idéia.

    Entraram, nas comarcas, os soldados,
    E entraram a gemer os tristes povos.
    Uns tiram os brinquinhos das orelhas
    Das filhas e mulheres; outros vendem
    As escravas, já velhas, que os criaram,
    Por menos duas partes do seu preço.
    Aquele que não tem cativo, ou jóia,
    Satisfaz com papéis, e o soldadinho
    Estas dívidas cobra, mais violento
    Do que cobra a justiça uma parcela
    Que tem executivo aparelhado,
    Por sábia ordenação do nosso reino.
    Por mais que o devedor exclama e grita
    Que os créditos são falsos, ou que foram
    Há muitos anos pagos, o ministro
    Da severa cobrança a nada atende;
    Despeza estes embargos, bem que o triste
    Proteste de os provar incontinenti.

    Não se recebem só, prezado amigo,
    Os créditos alheios, para embolso
    Das dividas fiscais. O soldadinho
    Descobre um ramo, aqui, de bom comercio:
    Aquele que não quer propor demandas
    Promete-lhe a metade, ou mais, ainda,
    Das somas que lhe entrega, e ele as cobra
    Fingindo que as tomou em pagamento
    Das dividas do rei. Ainda passa
    A mais esta desordem: faz penhoras
    E manda arrematar, ao pé da igreja,
    As casas, os cativos, mais as roças.

    Agora, Fanfarrão, agora falo
    Contigo, e só contigo. Por que causa
    Ordenas que se faça uma cobrança
    Tão rápida e tão forte contra aqueles
    Que ao erário só devem tênues somas?
    Não tens contratadores, que ao rei devem,
    De mil cruzados centos e mais centos?
    Uma só quinta parte, que estes dessem,
    Não matava, do erário, o grande empenho?
    O pobre, porque é pobre, pague tudo,
    E o rico, porque é rico, vai pagando
    Sem soldados à porta, com sossego!
    Não era menos torpe, e mais prudente
    Que os devedores todos se igualassem?
    Que, sem haver respeito ao pobre ou rico,
    Metessem, no erário, um tanto certo,
    À proporção das somas que devessem?
    Indigno, indigno chefe! Tu não buscas
    O público interesse. Tu só queres
    Mostrar ao sábio augusto um falso zelo,
    Poupando, ao mesmo tempo, os devedores,
    Os grossos devedores, que repartem
    Contigo os cabedais, que são do reino.

    Talvez, meu Doroteu, talvez que entendas
    Que o nosso Fanfarrão estima e preza
    Os rendeiros que devem, por sistema:
    Só para ver se os ricos desta terra,
    A força de favores animados,
    Se esforçam a lançar nas régias rendas.
    Amigo Doroteu, o nosso chefe,
    Se faz alguma coisa, é só movido
    Da loucura, ou do sórdido interesse.
    Eu vou, prezado amigo, eu vou mostrar-te
    Esta santa verdade, com exemplos.

    Morre um contratador e se nomeia,
    Para tratar dos bens, um seu parente,
    Que Ribério se chama. Não te posso
    Explicar o fervor com que Ribério
    Demanda os devedores, vence e cobra
    Os cabedais dispersos desta herança.
    Estava quase extinto o que devia
    A fazenda do rei; então o chefe
    Lhe ordena satisfaça todo o resto,
    No peremptório termo que lhe assina.
    Exclama o bom Ribério que não pode,
    Pois todo o cabedal, que tem cobrado,
    Ou está, nas demandas, consumido,
    Ou tem entrado, já, no régio erário.
    E, para bem mostrar esta verdade,
    Suplica ao grande chefe, que lhe escolha
    Um reto magistrado, que lhe tome,
    Da sua comissão, estreita conta.
    Pois isto, Doroteu, não vale nada:
    Sem contas lhe tomarem, manda o chefe
    Que gema na cadeia, até que pague.
    Já viste uma insolência semelhante?
    Aos grandes devedores, não se assinam
    Os termos peremptórios para a paga,
    Nem vão para as cadeias, bem que comam
    A fazenda do rei e só Ribério,
    Sendo um procurador, que nada deve,
    Vai viver na prisão, por tempos largos?
    Amigo Doroteu, o nosso chefe
    Patrocina aos velhacos, que lhe mandam,
    Para que mais lhe mandem. Prende e vexa
    Aos justos, que entesouram suas barras,
    Para ver se, oprimidos, se resolvem
    A seguir os caminhos dos que largam.

    Remata-se um contrato a um sujeito,
    Que o pode bem pagar, por mais que perca
    Pretende um fiador deste contrato
    Ir tratar, no Peru, do seu comercio;
    Vai licença pedir ao grande chefe,
    E o chefe lha concede. Escuta agora;
    Ouvirás uma ação, a mais indigna
    De quantas, por marotos, se fizeram:
    Apenas o tal homem sai da terra,
    Se despede uma esquadra de soldados
    Que, mal com ele topa, lhe dá busca.
    As cargas se revolvem, nem lhe escapam
    As grosseiras cangalhas, que se quebram.
    Não acham contrabandos, porem, sempre,
    Lhe tomam os dinheiros, que ele leva.
    E o grande chefe ordena que se metam
    No régio erário todos, inda aqueles,
    Que são de vários donos. Dize, amigo,
    Já viste uma injustiça assim tão clara?
    Aos grossos devedores não se tomam
    Os seus próprios dinheiros, bem que tenham
    Comido os cabedais dos seus contratos
    E, ao simples fiador de um rematante,
    Que nada, ainda, deve, e que tem muito,
    Vão-se, à força, tomar os seus dinheiros,
    E os dinheiros, que é mais, de estranhas partes!
    Agora, Doroteu, não tens que digas,
    Hás de, enfim, confessar, que o nosso chefe
    Somente não oprime a quem lhe larga.
    Ora, ouve as circunstancias que inda acrescem
    E que inda afeiam mais o torpe caso:
    Espalham as más línguas, que Matúsio
    Pedira ao tal sujeito lhe comprasse,
    Uns finos guardanapos e toalhas;
    Que o fiador mesquinho lh’os trouxera
    E, vendo que Matúsio se esquecia,
    Lhe chegou a pedir, sem peio, a paga.
    Que o chefe, ressentido desta injúria,
    Lhe mandou dar a busca por vingança,
    E que até ao presente inda não consta
    Que o preço da encomenda se pagasse.
    Que mais pode fazer o seu lacaio?
    Isto não é mais feio, que despir-se
    A preciosa capa ao grande Jove
    E mandar-se tirar ao sábio filho,
    O famoso Esculápio, as barbas de ouro?
    Amigo Doroteu, se acaso vires,
    Na corte, algum fidalgo pobre e roto,
    Dize-lhe que procure este governo;
    Que, a não acreditar que há outra vida,
    Com fazer quatro mimos aos rendeiros,
    Há de à pátria voltar, casquilho e gordo.

    A carta de delação de Joaquim Silvério dos Reis ao governador de Minas Gerais, Visconde de Barbacena, datada de 11 de abril de 1789, alertando as autoridades coloniais para a existência de um movimento clandestino em Vila Rica, que pretendia proclamar a república libertar o Brasil de Portugal, detonou uma brutal repressão contra a Inconfidência Mineira. Quarenta dias depois, a conjuração estava controlada e seus principais líderes, presos. Seriam condenados por traição em 1792. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado o líder do movimento, foi enforcado e esquartejado. Outros acusados foram também condenados à morte, mas a pena, mais tarde, foi transformada em degredo perpétuo.

    Leia também os Autos da Devassa, documento oficial com o resultado das investigações e as sentenças atribuídas aos réus.

    Ilmo. e Exmo. Sr. Visconde de Barbacena

    Meu Senhor:

    Pela forçosa obrigação que tenho de ser leal vassalo a nossa Augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou, na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta e prontamente passei a pôr na presença de V. Ex.ª o seguinte: Em o mês de fevereiro deste presente ano, vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o sargento-mor Luís Vaz de Toledo e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Ex.ª assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me de Sua Majestade que me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora, se me havia dado uma patente de coronel chefe do meu Regimento, e com o qual me tinha desvelado, em o regular e fardar, e grande parte à minha custa, e que não podia levar a paciência ver reduzido a uma inação, todo o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço e juntando mais algumas palavras em desafogo de minha paixão.

    Foi Deus servido que isto acontecesse, para se conhecer a falsidade que se fulmina. No mesmo dia viemos a dormir à casa do capitão José Resende e, chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito sargento-mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração, pelo sentimento das queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar-me, debaixo de todo o segredo, o seguinte: “Que o desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de Ouvidor dessa Comarca, e que nesse posto se achava há muitos meses nessa Vila, sem se recolher a seu lugar na Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia, porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação e que se tinha disposto da forma seguinte: procurou o dito Gonzaga o partido e união do coronel Inácio José de Alvarenga, e o padre José da Silva de Oliveira e outros mais, todos filhos da América, valendo-se, para reduzir outros, do alferes pago José da Silva Xavier, e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: e que o dito coronel Alvarenga havia de mandar 200 homens, pés-rapados, da Campanha, paragem onde mora o dito coronel, e outros 200 o padre José da Silva, e que haviam de acompanhar a estes vários sujeitos que já passam de 60, dos principais destas Minas, e que estes pés-rapados haviam de vir armados de espingardas e foices, e que não haviam de vir juntos por não causar desconfiança, e que estivessem dispersas, porém perto da Vila Rica e prontos à primeira voz, e que a senha para o assalto que haviam ter cartas, dizendo – tal dia é o batizado, e que podiam ir seguros, porque o comandante da tropa paga, o tenente-coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante que por essa causa se não tinha concluído o dito levante e que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V. Ex.ª e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia de fazer uma fala ao povo cuja já estava escrita pelo dito Gonzaga e para sossegar o dito povo, se haviam levantar os tributos e que logo se passaria a cortar a cabeça ao Ouvidor dessa Vila, Pedro José de Araújo e ao escrivão da Junta, Carlos José da Silva e ao adjudante-de-ordens Antônio Xavier, porque estes haviam seguir o partido de V. Ex.ª e como o Intendente era amigo dele Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los, quando duvidasse também se lhe cortaria a cabeça. Para este intento me convidaram e se me pediu mandasse vir alguns barris de pólvora, e que outros já tinham mandado vir e que procuravam o meu partido por saberem que eu devia a Sua Majestade quantia avultada, e que esta logo me seria perdoada, e como eu tinha muitas fazendas e 200 e tantos escravos, me seguravam fazer um dos grandes; e dito sargento-mor me declarou várias entradas neste levante, e que se eu descobrisse, me haviam de tirar a vida como já tinham feito a certos sujeitos da Comarca de Sabará.

    Passados poucos dias, fui a Vila de São José, donde o vigário da mesma, Carlos Correa me fez certo quanto o dito sargento-mor me havia contado e, disse-me mais, que era tão certo que, estando ele dito, pronto para seguir para Portugal, para o que já havia feito demissão de sua igreja, e seu irmão, e que o dito Gonzaga embaraçara na jornada, fazendo-lhe certo que, com brevidade, cá o poderiam fazer feliz, e que por este motivo suspendera a viagem. Disse-me o dito vigário, que vira parte das novas leis, fabricadas pelo dito Gonzaga, e que tudo lhe agradava, menos a determinação de matarem V. Ex.ª e que ele dito vigário, dera o parecer ao dito Gonzaga que mandasse antes botá-lo do Paraibuna abaixo, e mais a senhora viscondessa e seus meninos, porque V. Ex.ª em nada era culpado e que se compadecia do desamparo em que ficava a dita senhora e seus filhos, com a falta de seu pai, ao que lhe respondeu o dito Gonzaga que era a primeira cabeça que se havia de cortar, porque o bem comum prevalece ao particular, e que os povos que estivessem neutrais, logo que vissem o seu general morto, se uniram ao seu partido. Fez-me certo este vigário que para esta conjuração trabalhava fortemente o dito alferes pago, Joaquim José Xavier, e que já naquela Comarca tinham unido ao seu partido um grande séquito, e que havia de partir para a capital do Rio de Janeiro, a dispor alguns sujeitos, pois o seu intento era também cortar a cabeça do senhor vice-rei e que já na dita cidade, tinham bastante parciais. Meu senhor, eu encontrei o dito alferes, em dias de março, em marcha para aquela cidade, e pelas palavras que me disse, me fez certo o seu intento que levava e consta-me, por alguns da parcialidade, que o dito alferes se acha trabalhando isto particularmente, e que a demora desta conspiração era enquanto não se publicava a Derrama; porém que, quando tardasse, sempre se faria. Ponho todos estes importantes particulares na presença de V. Ex.ª pela obrigação que tenho da fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que com o bom discurso de V. Ex.ª há de acautelar tudo e dar as providências, sem perdição dos vassalos. O prêmio que peço tão-somente a V. Ex.ª é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém. Meu senhor, mais algumas coisas tenho colhido e vou continuando na mesma diligência, o que tudo farei ver a V. Ex.ª, quando me determinar. O céu ajude e ampare a V. Ex.ª para o bom êxito de tudo: beija os pés de V. Ex.ª o mais humilde súdito.

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