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O mundo católico iniciou ontem, com a celebração do Domingo de Ramos, os ritos da Semana Santa, que comemoram a paixão e morte de Jesus. Alguns rituais – sobretudo na Europa, na América espanhola e no Brasil central – ainda remontam aos costumes medievais, como as procissões com archotes e as flagelações públicas. Nas Filipinas existem até as crucificações reais – pelo menos por alguns minutos – de voluntários que, de fato, têm suas mãos e pés transfixados por pregos.

Mas de onde vêm esses rituais solenes e comoventes e que às vezes raiam ao fanatismo?

O costume de celebrar de modo especial a semana anterior à Festa da Páscoa vem desde os primeiros séculos cristãos, se bem que, inicialmente, as solenidades limitavam-se à sexta-feira e ao sábado.

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No século IV, essa semana especial chamava-se Hebdomada Paschalis (semana pascal), e no século seguinte passou a chamar-se Semana Autêntica. Isso em Roma. No Oriente, chamava-se Semana Maior. Por esse mesmo tempo surgiu o nome Semana Santa.

Inicialmente, talvez já nos tempos dos apóstolos, a Semana Santa era celebrada só a partir da sexta-feira. Eram dois dias (sexta-feira e sábado) de jejum rigoroso, em preparação para o domingo, em que se celebrava a ressurreição de Cristo. Depois, foi incluída também a quarta-feira (de trevas), para lembrar o dia em que os chefes judeus decidiram prender o Salvador.

Lá pelo ano de 247, parece que já havia toda uma Semana Santa. Um escritor desse tempo diz que muitos cristãos passavam todos esses dias em absoluto jejum. Em algumas igrejas, esses dias eram também de descanso para todos os servos e escravos. Algumas igrejas celebravam todas as noites vigílias solenes de orações e leituras, com a celebração da eucaristia.

As cerimônias próprias da Semana Santa surgiram principalmente em Jerusalém onde, de certo modo, permaneciam mais vivas as lembranças dos últimos dias de Jesus. Essas solenidades foram imitadas mais tarde pelas Igrejas do Oriente, depois pelas Igrejas européias. Só lá pelo século IX é que chegaram até Roma. É interessante notar que, já nesses primeiros tempos, na sexta-feira e no sábado jamais se celebrava a eucaristia.

RAMOS

O nome Domingo de Ramos já existia nos anos 600. Houve tempo em que esse domingo se chamava Capitulavium (Lavação das cabeças), porque nesse dia, os que iam ser batizados no sábado seguinte, participavam de uma cerimônia preparatória, quando suas cabeças eram solenemente lavadas.

A procissão de ramos começou a ser feita em Jerusalém, no século IV, para relembrar a entrada solene de Jesus, aclamado como Messias. Não se tratava apenas de relembrar um fato do passado, mas de dar um testemunho público de fé em Jesus como o Salvador enviado.

Em Jerusalém, a procissão começava às treze horas, no Monte das Oliveiras. Cantavam-se hinos e salmos, e ouviam leituras da Escritura Sagrada. Finalmente, lá pelas dezessete horas, era lido o evangelho que descreve a entrada de Jesus em Jerusalém. Todos, então, com ramos de oliveira e palmas, saiam em direção da cidade, cantanto e orando. De tempos a tempos havia umas paradas, semelhantes aos ‘Passos’ da Via Sacra.

Na Idade Media, a celebração do Domingo de Ramos deu oportunidade para grandes encenações. Em alguns lugares não faltava nem mesmo um burrinho de madeira, arrastado sobre rodas. Sobre o burrinho vinha uma imagem de Jesus. Reza a tradição que foi montado num burrinho que ‘ingrediente Dominus in sancta civitatem‘ (o Senhor entrou na Cidade Santa)

Lá pelo ano 1000, as Igrejas da Europa introduziram os ritos da Quinta-feira Santa, cujo nome antigo era ‘Feria quinta in Coena Domini’ (Quinta-feira da Ceia do Senhor’. Em alguns lugares chamava-se Dia da Traição.

Estudos mostram semelhanças da Páscoa cristã com narrativas mitológicas

Embora já existisse nos anos 240, a Semana Santa foi estabelecida no Concílio de Nicéia, dirigido pelo Papa Silvestre I. Desde então, festejam-se em oito dias a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Um decreto papal estabeleceu o Domingo da Ressurreição como a data mais importante do ano eclesiástico. Ele é celebrado sempre no domingo seguinte à primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte e do outono no Hemisfério Sul.

Entretanto, muitos estudiosos tentam dar outra interpretação a esses fatos, trazendo uma visão menos denotativa à história da paixão e ressurreição. De acordo com os pesquisadores M. Goguel, C. Guignebert, e A. Loisy, a morte trágica seguida do processo de ressurreição vinculada a Jesus em muito se assemelha às histórias de outros deuses como Osíris, Attis e Adônis.

Estudos mais recentes apontam que essa associação entre a páscoa cristã e outras narrativas mitológicas está equivocada. A própria concepção de mundo e as funções pelas quais o processo de morte e ressurreição assumem nas crenças orientais e greco-romanas não podem ser vistas da mesma maneira que na construção do ideário cristão. O estudioso A. D. Nock aponta para o fato de que no cristianismo a crença na veracidade da história bíblica é uma chave fundamental de seu pensamento ausente na maioria das religiões que coexistiram na Antiguidade.

Interpretações mais vinculadas à própria cultura judaica e à narrativa Bíblica apontam a Páscoa como uma nova resignificação da festividade de libertação dos hebreus do cativeiro egípcio. Nessa visão, a libertação do cativeiro, enquanto um episódio de redenção do povo hebreu, se equipararia à renovação do Cristo que concedeu uma nova esperança aos cristãos. Apesar de a narrativa bíblica afirmar que o episódio da ressurreição foi próximo à festa judaica, a definição do dia da Páscoa causou uma contenda junto aos representantes da Igreja.

No ano de 325, durante o Concílio de Niceia houve a primeira tentativa de se estabelecer uma data que desse fim às contendas com respeito ao dia da Páscoa. Mesmo tentando resolver a questão, só no século XVI – com a adoção do calendário gregoriano – as dificuldades de se precisar a data da páscoa foram amenizadas. A data ficou estipulada no primeiro domingo, após a primeira Lua cheia do Equinócio da Primavera, entre os dias 21 de março e 25 de abril. Mas nos moldes como os de hoje, os rituais só começaram em 1.682.

Mesmo sendo alvo de tantas explicações e contendas, a Páscoa marca um período de renovação entre os cristãos, onde a morte de Jesus deve ser lembrada com resignação e alegria. Ao mesmo tempo, traz aos cristãos a renovação de todo um conjunto de valores fundamentais à sua prática religiosa.

Páscoa lembra a saída do povo hebreu do Egito rumo à Terra Prometida

O terceiro livro da Bíblia, Levítico, escrito por Moisés, conta que a páscoa originou-se com a consagração das primícias, onde era apresentado a Deus o resultado das plantações, as boas colheitas. A páscoa ficou conhecida como o nascimento da liberdade do povo judeu. Deus queria a libertação de seu povo, que não era aceita pelo faraó do Egito. Moisés lutou contra Ramsés e como forma de puni-lo, Deus mandou vários sinais em forma de pragas, sendo que no pior deles, exterminou todos os filhos primogênitos das famílias egípcias, inclusive o filho do faraó, que se revoltou e ordenou que seus soldados matassem o povo judaico.

Assim, a páscoa ganha o sentido de libertação diante da morte, quando na fuga desse povo, Moisés abre o Mar Vermelho, com seu cajado, tornando possível a passagem dos hebreus para o lado da Terra Prometida.

O termo páscoa tem origem do hebraico (Pessach), que significa passagem, estando também relacionado às celebrações pagãs da passagem dos períodos entre o inverno e a primavera.

Sendo uma festa familiar, um dia antes de sua comemoração é feita uma limpeza nas casas, tirando tudo aquilo que pudesse prejudicar os princípios judaicos.

A principal celebração feita pelos povos judeus é o jantar em família (Seder), onde aparecem os alimentos que têm grande importância na cultura desse povo. Esse jantar serve ainda para ensinar as gerações mais novas a ‘Torah’, sobre os três principais alimentos da refeição: o cordeiro, os pães e as ervas amargas.

O cordeiro (pesah) ‘é o sacrifício da páscoa de Jahwé, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou nossas casas’. (Ex 12,27).

O pão ázimo (matsah) que foi feito às pressas, antes da fuga do Egito. ‘E cozeram bolos ázimos da massa que levaram do Egito, porque ela não tinha levedado, porquanto foram lançados do Egito; e não puderam deter-se, nem haviam preparado comida.’ (Ex. 12,39).

Já as ervas amargas (maror). ‘Assim lhes amargurava a vida com pesados serviços em barro e em tijolos, e com toda sorte de trabalho no campo, enfim, com todo o seu serviço, em que os faziam servir com dureza.’ (Ex. 1,14), pela vida amarga, pelo sofrimento causado durante o trabalho escravo.

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