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Há umas semanas, comentei o melancólico fim dos foguetes-de-rabo que pipocaram na minha infância, alegrando as festas, procissões e iluminando as noites fechadas de cidade sem luz elétrica, que Dianópolis aquele tempo era valida pelo querosene e pelos bibianos de flandres que o velho Henrique de Norata fazia aproveitando latas vazias.

E logo no dia seguinte, recebi um conciso e incentivador e-mail de Bariani Ortêncio: “Muito bom o seu artigo, cheio de verdades. Vai batendo nesta tecla do regionalismo para despertar saudades. Tenho um livro inédito com o título Chão  bruto – sertão e cidade. Bariani Ortencio.”

E nesse despertar de saudades, Bariani achou um parceiro, que vai evocar os costumes e debulhar reminiscências neste espaço que o jornal me concedeu.

E falando em foguetes-de-rabo, outra coisa que morreu pelos interiores goiano e tocantinense foi a fogueira de São João, que animava as noites do santo primo de Jesus. É, inclusive, padroeiro de muitas cidades, dentre elas minha querida Paranã, sendo o santo de devoção de tia Celina, que não dispensava o que ela chamava, de boca cheia, a “procissão fluvial do rio”, em homenagem ao filho de Zacarias e Isabel.

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Na véspera da festa, já começava a animação: a gente ia pro mato, cortava uma árvore de seus cinco metros de altura, preferentemente copada, e, estirada no espaldar de uma cadeira ou num cavalete, era enfeitada com sacos de pipoca, garrafas de vinho, rodas de bolo, roletes de cana e outras prendas, tudo bem amarrado nos galhos. Ali no terreiro diante da casa, cavava-se um buraco e enfincava-se a árvore, ainda de tarde cedo.

À noite, colocava-se lenha em seu derredor, tocava-se fogo, enquanto a mole-cada esperava ansiosa que o fogo consumisse o caule, até a árvore cair. Como a madeira era verde e demorava-se a consumir-se, a meninada, cá embaixo, já ficava de olho nas guloseimas que iriam pegar, na hora do “avança”. Uns, mais impacientes, de vez em quando, saltavam por cima da fogueira e, fazendo do tronco um eixo, rodopiavam, apressando a queda.

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Quando a árvore começava a dar motivo de cair, a meninada se empurrava em bloco, acompanhando o movimento do cai-não-cai.  E a queda era concomitante com o assalto coletivo, quando a molecada – e eu no meio – aos trancos e barrancos, disputava as prendas, às vezes aos tapas que acabavam quase sempre numa diferençazinha a ser apurada depois.

Para açular ainda mais os ânimos, os mais malandros jogavam bombas cabeça-de-negro e traques no bolo de meninos, causando um fumaceiro dos diabos e esmorecendo os mais mofinos.  Acabado o saque, partíamos para outra fogueira, pois a queima era programada e nunca coincidia horário, para garantir a festa em to-das. E o negócio ia até noite alta.

Terminada a queimação das fogueiras, havia outras diversões: assar batata-doce e milho verde no borralho, carne seca nas brasas e arranjávamos até uma compadragem de São João: punha-se um tição no chão e pronunciava-se uma oração mais ou menos assim, repetindo-se o que o outro dizia:

“Eu juro/ e prometo/

Por S. João/ S. Pedro

São Paulo/ todos os santos/

Da cor do céu/

Que Fulano é meu compadre.”

E assim, com o que se convencionou chamar-se de “saltar fogueira”, ficava-se compadre, padrinho, afilhado etc., de acordo com as preferências de cada um.  E esse pacto era (e é até hoje) respeitado: tenho um bando de compadres “de São João” e até um padrinho (Otavinho), já passou da casa dos 100 anos.

Mas a compadragem de São João também servia para resolver situações melindrosas: quando minha mãe era nova, um rapaz de nome Chicada danou a arrastar a asa pro lado dela, doido pra namorar.  Mas parece que da parte dela o interesse já nascera morto. E a gentileza de Chicada deixava-a em situação difícil, por receio de magoá-lo. E pra resolver o problema satisfatoriamente, convidou-o para “saltar fogueira”, acompadrando-se no São João. E como compadres ficaram, até morrerem. A saltação de fogo resolveu o caso, pois compadre não namora comadre. Ele viveu em Barreiras, na Bahia, mas sempre devotando aquele estima à comadre Regina, e para selar ainda mais o pacto de compadrança, estabeleceu que minha irmã caçula, Regininha, seria sua afilhada. E ela o chamava de “meu padrinho”, com bença e tudo.

Quatro dias depois de São João, repetia-se a festa, com as fogueiras de São Pedro e São Paulo, que eram em menor número.  Motivo: só faziam a fogueira as viúvas, que eram impedidas pela tradição (não sei por quê) de fazer a de São João.  Era o repeteco da festa anterior, com avanço dos moleques, estouro de bombas e traques no meio dos avançadores, havendo ocasiões em que saía gente completa-mente surda dali; ainda me lembro de uma bomba que estourou no pé-do-ouvido de Tonho de Vivina, que o deixou meio besta sem escutar as coisas um bando de tempo.

Agora, de volta ao interior, vendo o asfalto corrido diante das casas, compreendi que as fogueiras haviam sido sepultadas pelo progresso, por falta de um lugar  para se fincar o pé-de-pau cheio de prendas.

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