Memórias de um Fusca

Ou De como entrei para a história da literatura brasileira
Se me lembro bem, era julho de 1976, e eu, com meus 10 anos de idade estava indo passar o fim de semana no sítio do Orígenes Lessa! Ele mesmo, o escritor de O feijão e o sonho, das Memórias de um cabo devassoura, das Letras falantes, das Memórias de um fusca. Eu tinha lido mais de quarenta livros do Orígenes e, pra mim, ele era o maior escritor do Brasil. E não era só isso, não. Minha mãe garantia que ele era um dos primeiros e mais talentosos publicadores do país (inventou até o nome Kinbon, imaginem!)
Ele era um,sujeito muito importante na cultura brasileira, mas, além do sítio e de um apartamento de um quarto na Avenida Prado Júnior, em Copacabana, possuía apenas um fusquinha 66. Acho que era o fusca do livro. Como o Orígenes tinha mais de 70 anos, quem dirigia era Maria Eduarda, sua esposa de Lisboa (“É portuguesa, coitada…”, ele costumava brincar).
O sítio ficava em Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro, e a viagem durava mais de duas horas. Minha mãe e minha irmã foram no banco da frente. Atrás, todo metido, eu viajava entre meu pai e meu ídolo.
Na estrada, paramos num posto de gasolina, e as três mulheres desceram para ir ao banheiro. Orígenes contava um caso engraçado e antigo para o meu pai, e acho que por isso os dois não perceberam quando o carro começou à descer de ré. A Maria Eduarda tinha esquecido de puxar o freio de mão, e o fusca começou à recuar com gingado.
Senti alguma coisa esquisita no ar, virei o pescoço e vi um precipício gigantesco atrás de nós. O carro ganhando velocidade. Orígenes e meu pai rindo alto, nem desconfiando da tragédia que estava prestes a acontecer. Foi então que eu dei um pulo pro banco da frente, agarrei aquele freio e puxei para cima, com toda força. Ufff, o carro parou com um estrondo!
Olhei pros lados. Os dois adultos estavam atônitos, brancos feito uma página vazia. Dali a um segundo, o Orígenes começou a aplaudir, balançando a cabeça onde, com certeza, se misturavam as idéias para um punhado de livros que ele escreveria depois.
Não fosse aquele meu impulso de heroísmo infantil, Orígenes não teria escrito, nos 10 anos seguintes, algumas obras-primas da literatura infantil e adulta: É conversando que as coisas acontecem, Milagre emOutro Preto, A noite sem homem, entre outros tantos.
Por outro lado, se não tivesse puxado aquele freio de mão, teria poupado Orígenes do embaraço de concorrer com José Sarney por uma vaga na Academia Brasileira de Letras. E perder.
Mas o que importa, mesmo, é que meu escritor favorito viveu mais 10 anos, trazendo fantasia, humor e poesia pra criançada. Ninguém sabe disso, mas naquele dia eu entrei pra história da literatura brasileira.
PS: Felizmente, o Orígenes se candidatou uma segunda vês à Academia e ganhou, quase por humanidade.