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    Educação em Espaços Não-Escolares

     

    Educação em Espaços Não-Escolares: O CRAS Como Campo de Desenvolvimento

    A pedagogia social ainda é pouco discutida no cenário educacional. As reflexões acerca de seu caráter educativo dão margens a conceituações que direcionam a pedagogia social a uma vertente pedagógica que parece não estabelecer vínculos com a educação em seus mais diversos aspectos. Sendo a educação fator primordial para o desenvolvimento integral do ser humano, este trabalho torna-se relevante pelo seu caráter de abrangência social e científica que contribui tanto para questões ligadas a sociedade quanto para a educação.

    A presente pesquisa surgiu a partir do meu contato com a Pedagogia Social através do curso de Bacharelado em Serviço Social que é realizado concomitantemente ao curso de Pedagogia, e me permitiu perceber os diversos espaços em que a educação acontece e nos quais a pedagogia tem papel relevante.

    A educação em espaços não escolares ainda é pouco percebida, e o caráter social de sua ação me despertou para a investigação do seu desenvolvimento num Centro de Referência em Assistência Social – CRAS -, onde foi realizado um estágio obrigatório ao Curso de Bacharelado em Serviço Social e onde tive o primeiro contato com essa vertente pedagógica. Percebi que, além dos assistentes sociais e psicólogos, os pedagogos também tinham seu espaço de atuação delimitados, mas com uma nova forma de desenvolvimento profissional, sem perder o caráter educacional de sua prática.

    Como pedagoga em formação, a percepção da atuação dos profissionais nesse espaço direcionou meu olhar para Pedagogia Social, sendo de extrema importância a explicitação de seu conceito e de seu campo de atuação para que seus profissionais não se confundam com a percepção histórica de que a pedagogia restringe-se exclusivamente à docência em salas de aula ou à atuação em instituições formais de ensino.

    Tendo pedagogos no quadro funcional do CRAS e por estar a Pedagogia estritamente relacionada ao processo educativo, incitou-me o questionamento sobre quais as propostas educacionais existentes no CRAS do município de Macarani? Para tentar responder a esse questionamento foi necessário analisar quais as propostas educacionais existentes no CRAS; conhecer os projetos desenvolvidos, verificando de que forma são desenvolvidos e a quem se destinam, e por fim, identificar quais os profissionais responsáveis pela sua implantação e desenvolvimento.

    Assim, no primeiro capítulo, discorro sobre um breve histórico da pedagogia social, no segundo capítulo, sobre os procedimentos metodológicos e o terceiro capitulo sobre a análise dos dados coletados.

    Pedagogia e Pedagogia Social: Breve Histórico
    A pedagogia social ainda aparece de maneira incipiente no cenário educacional. Pouco se discute a respeito de seu surgimento, sua constituição e qual o seu lugar na sociedade e no mercado de trabalho.

    Ainda existe certa “estranheza” quando o termo pedagogia social é debatido no âmbito educacional, por desconhecimento ou incompreensão. Muitos não conhecem do que trata a pedagogia social, qual seu campo de atuação e quem é esse profissional responsável por seu desenvolvimento. Não compreendem como a pedagogia, vinculada estritamente aos espaços educacionais, pode ter uma vertente social, mais uma prova do desconhecimento do processo educativo, que se inter-relaciona ao desenvolvimento da sociedade e que acontece nos diversos espaços de interação social.

    Filósofos como Platão e Aristóteles já discutiam a Pedagogia Social antes mesmo que ela se tornasse ciência ou campo de estudo aos considerar a importância da educação para o desenvolvimento da sociedade, estando ela presente “nas ações beneficentes do cristianismo ou nas heranças dos educadores como Froebel e Pestalozzi, ambos pedagogos que se tornaram referência na Europa, apesar de não usar nomenclatura abraçavam a ideia do sujeito social” (MORAES, 2012, p.2).

    Diaz conceitua a pedagogia social como: Uma ciência pedagógica, de caráter teórico-prático, que se refere à socialização do sujeito, tanto a partir de uma perspectiva normalizada como de situações especiais (inadaptação social), assim como aos aspectos educativos do trabalho social. Implica o conhecimento e a ação sobre os seres humanos, em situação normalizada como em situação de conflito ou necessidade. O conceito de pedagogia social mais generalizado é o que faz referência à ciência da educação social das pessoas e grupos, por um lado, e, por outro, como ajuda, a partir de uma vertente educativa, às necessidades humanas que convocam o trabalho social, assim como o estudo da inadaptação social (2006, p. 92).

    A pedagogia social seria assim uma ciência pedagógica que tem seu foco nas relações que o indivíduo estabelece em sua comunidade para superação de adversidades e necessidades existentes, enquanto ser social. Sua metodologia está voltada aos grupos sociais, a uma educação realizada para atender às situações provenientes das interações do sujeito na sua comunidade, seja num momento de adversidades, na qual necessita de uma interferência para sua superação, como, por exemplo, a inadaptação do indivíduo ao meio, seja em situações em que visem a manutenção da socialização, no atendimento às necessidades educativas.

    Na Alemanha o termo “Pedagogia Social” foi usado pela primeira vez na obra de Diesterweg: “Bibliografia para a Formação dos Mestres Alemães”, em 1850, mas sem direcionamento científico e pedagógico. Paul Natorp (1854 – 1920) foi o primeiro pensador a sistematizar a pedagogia social. Em 1898, em sua obra “Pedagogia Social. Teoria da educação e da vontade sobre a base da comunidade”, Natorp defende a comunidade e considera o individualismo a origem e a causa dos conflitos na Alemanha. Assim, a educação vincula-se à comunidade e não aos indivíduos. Natorp procura elaborar uma teoria sobre a educação social, concebendo a Pedagogia Social como saber prático e como saber teórico (QUINTANA, 1997, apud MACHADO, 2008, p.2).

    Nesse período, a Alemanha passava pelo processo de industrialização, e a sociedade atravessou percalços. Os movimentos migratórios (do campo para a cidade) ocasionam a proletarização e ao mesmo tempo o desemprego; aumenta-se a desigualdade econômica e cultural e menores são marginalizados devido ao abandono causado pela pobreza.

    A educação nesse momento é compreendida como único meio pelo qual a sociedade poderia superar tais dificuldades e necessitava-se de uma pedagogia que atendesse aos anseios individuais e sociais dessa comunidade, e que buscasse superar esse viés individualista criado pelo processo de industrialização. Pensou-se numa pedagogia social, onde cada indivíduo pudesse se reestabelecer dentro desse novo grupo ao qual fazia parte.

    Com a criação da escola de Pedagogia Sociológica por Natorp, que é uma parte da Pedagogia Social enquanto ciência inicia-se o movimento de desenvolvimento da pedagogia social para atendimento da comunidade, que é compreendida como a base da construção do progresso dos indivíduos. Diaz esclarece que:

    Este autor defende a ideia de que o homem individual é uma abstração, já que em toda a pessoa subsiste a totalidade da comunidade em que se desenvolve. A comunidade é, para ele, a condição que possibilitas todo progresso e o ideal a que deverá referir-se qualquer ação educativa. Parte da relação indivíduo-comunidade e põe uma ênfase especial na ideia que o ser humano é, sobretudo, um ser social, de tal maneira que só poderá chegar a ser homem mediante a comunidade: toda a atividade educadora se realiza sobre a base da comunidade.

    Entende que toda pedagogia é social, ou deixa de ser autêntica pedagogia. Portanto, a pedagogia social não é, para Natorp, uma parte da pedagogia geral, como sustentam outros autores da época, mas a “pedagogia”. É a pedagogia contemplada a partir de uma determinada perspectiva, precisamente a da comunidade social (2006, p. 93).

    A comunidade então seria o campo de conhecimento e de desenvolvimento humano, de progresso social. Fora dela, impossível conceber a ideia de um homem como ser social, pois é na comunidade onde se criam e se recriam os processos educativos e constitutivos das relações humanas.

    Com o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, evidenciam-se os problemas sociais (desemprego, pobreza, marginalização social, cultural e econômica de crianças, jovens e idosos e total ausência de proteção social), o que contribui para que a pedagogia social caminhe para o seu reconhecimento, dando ênfase ao atendimento aos problemas então surgidos. Assim, foi estabelecida no país uma política de atendimento às necessidades sociais, na qual a melhoria da qualidade de vida através de leis de apoio e assistência social a toda sociedade afetada (trabalhadores, crianças e jovens), bem como apoio às instituições sócio pedagógicas eram seus objetivos.

    Nesse momento, a figura de Herman Nohl (1879 – 1960) se destaca ao ampliar o conceito de pedagogia e de educação fora da família e do ambiente escolar.
    Para Nohl, Pedagogia Social não se refere a toda a Pedagogia, mas a parte relacionada à educação popular. Visa atender a necessidades concretas do período após a Primeira Guerra. Centra sua proposta na prevenção como forma de solucionar os problemas sociais (MACHADO, 2008, p. 3).

    Seria então esta uma pedagogia direcionada ao atendimento das necessidades sociais, estando sua atuação em meio às camadas populares, desenvolvendo ações preventivas diretamente na sociedade, buscando assim a supressão dos problemas sociais daquele período.
    Baumer, colaboradora e discípula de Nohl, ajuda a ampliar esse conceito, compreendendo que a Pedagogia Social, sendo realizada fora da escola, é tarefa social e estatal, estando intimamente relacionada às camadas sociais mais necessitadas.

    Dessa forma, a Pedagogia Social se define a partir da realidade concreta e a sociedade é o seu campo de atuação e intervenção científica. Assim, é na sociedade, nos seus problemas e na busca de sua superação e/ou prevenção, que a Pedagogia Social vai caracterizando e conceituando enquanto ciência atuante e não só conceitualizada teoricamente, sem identificação do seu espaço de intervenção (MACHADO, 2008)
    Em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, os trabalhos da Pedagogia Social foram interrompidos devido à falta de investimento estatal, que limitou o desenvolvimento dos trabalhos neste campo.

    O período do surgimento da Pedagogia Social na Alemanha coincide com o momento em que a sociedade reconhece os movimentos populares que reivindicam liberdade e direitos humanos, influenciados pela Revolução Francesa e também pela Revolução Industrial.

    A crise econômica, social e industrial que afetou a Alemanha nesse período de transformações propiciou à Pedagogia Social o desenvolvimento de seu caráter interventivo no âmbito sócio educacional, buscando superar as contradições causadas pela renovação das estruturas sociais, sendo a educação a mediadora da redução dos conflitos políticos entre socialistas e comunistas.

    Encontramos ainda nesse período, sendo influenciados pela concepção idealista de Natorp, E. Kriek e A. Baumler, que aplicaram a teoria da Pedagogia Social aos problemas pedagógicos. “Para Kriek, a educação tem de basear-se na comunidade e, especialmente, na raça e no povo. No seu entender, a educação é uma função originária do espírito e da comunidade” (DIAZ, 2006, p. 95).

    Sendo uma função originária do espírito e da comunidade, a educação necessita então ser compreendida através das manifestações de sua comunidade e não como ato neutro em suas realizações. A educação então é influenciada pelas relações estabelecidas pelo povo dentro de sua comunidade.

    A pedagogia social então vai se construindo e ganhando espaços de atuação, garantindo a construção de seu conceito enquanto ciência da educação social e contribuindo para a superação das adversidades sociais.

    Nos diversos países pelos quais a pedagogia social se propagou, em cada um deles esta assumia um caráter diferenciado. Na Itália, a pedagogia social referia-se mais à educação informal do que a não formal, sendo defendida a ideia de que a sociedade educa o cidadão e o seu processo de aprendizagem ocorrido da comunidade para o indivíduo. Nesse processo estão envolvidos todos os setores da sociedade tais como família, igreja, escola, estado, associações, meios de comunicação, sendo responsáveis pela educação de seus membros havendo aí uma interação da comunidade com os seus membros.

    Na França a pedagogia social esteve associada ao atendimento das necessidades da sociedade devido ao fim da Segunda Guerra, em 1945. A educação de adultos era uma de suas áreas de atuação. A análise e as ações para eliminação dos problemas de pobreza, dos conflitos raciais, da falta de escolarização e da saúde, visando a superação das adversidades, desvia-se um pouco do seu sentido pedagógico quando se volta apenas para a supressão das carências sociais.

    Na Espanha a pedagogia social também tem a família como espaço de desenvolvimento juntamente com a comunidade. Nesse momento, iniciaram-se os debates, encontros e seminários para se discutir a questão da delimitação de sua cientificidade e atuação, ganhando espaço enquanto disciplina nas academias.

    No Brasil, o precursor da pedagogia social, embora não a tenha citado, é Paulo Freire. A pedagogia freireana em sua metodologia buscava a emancipação dos sujeitos através do desenvolvimento de seu senso crítico, tendo como base a própria realidade do educando. Paulo Freire priorizava a aprendizagem uma vez que esta não acontecesse de forma a privar os educandos de construir uma reflexão acerca do meio em que vive, desenvolvendo assim o seu olhar crítico a respeito das relações estabelecidas na sua realidade. Valorizava os conhecimentos prévios do educando e preconizava um modo de “fazer educação” que não limitasse a construção do sujeito e a sua percepção enquanto ser social responsável pelas transformações ocorridas em seu meio, a partir do desenvolvimento de seu senso crítico (MACHADO, 2009).

    Pedagogia e Educação Não formal
    A pedagogia, de uma forma geral, ainda passa por um momento de definições curriculares na construção identitária. É comum a associação do pedagogo ao professor e à prática docente, estando a pedagogia sempre vinculada à formação de professores, tendo a escola e a sala de aula como exclusivos campos de atuação. O curso de Pedagogia ainda é visto como um curso de formação de professores para atuação em ensino infantil e séries iniciais do ensino fundamental, sendo os pedagogos os principais responsáveis pelo processo de ensino-aprendizagem.

    A figura do pedagogo atuando em espaços não-escolares ainda é pouco compreendida. As Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia diz, em seu art. 5º, IV, que o egresso do curso de pedagogia deverá estar apto para “trabalhar em espaços escolares e não-escolares, na promoção da aprendizagem do sujeito em diferentes fases do desenvolvimento humano, em diversos níveis e modalidades do processo educativo” (BRASIL, 2005), o que permite que o pedagogo não se limite apenas ao exercício da docência por entre os muros escolares, mas também não esclarece quais são esses espaços e qual sua forma de atuação.
    Parece abrangente ao mesmo tempo em que soa indefinida a atuação do pedagogo em espaços não-escolares. Quais seriam esses espaços? O que é a educação não escolar? Como a pedagogia pode contribuir para a promoção da aprendizagem nesses espaços? Primeiramente, é necessário diferenciar os vários tipos de educação para podermos responder a esses questionamentos.

    A educação se divide em educação-formal, não formal e informal. A educação formal é aquela que ocorre dentro das instituições de ensino devidamente registradas, autorizadas e credenciadas por seus órgãos competentes, e que necessita de organogramas e diretrizes pré-estabelecidas para nortear as suas ações. A educação formal é aquela que acontece nos espaços onde há a sistematização dos processos de ensino-aprendizagem. “Educação formal seria, pois, aquela estruturada, organizada, planejada intencionalmente, sistemática. Nesse sentido, a educação escolar convencional é tipicamente formal” (LIBÂNEO, 1998, p.81).

    A educação não formal se diferencia da formal nas questões relativas à sistematização dos processos de aprendizagem e aos seus locais de desenvolvimento. A educação não formal não dispõe de estruturação rígida e nem sistematizada. Ocorre em espaços coletivos de troca de saberes e experiências e o aprendizado acontece de forma que os sujeitos participantes interajam no grupo de forma intencional, e não obrigatória.

    A inserção do indivíduo na educação não formal depende apenas de seu interesse de participação. “O não formal é o que fica à margem do organograma do sistema educativo graduado e hierarquizado” (MACHADO, 2008). O não formal apresenta-se então como formas de educação que estão fora dos sistemas padronizados de ensino, podendo acontecer em espaços variados, tem em comum o interesse pelo aprendizado. Como exemplos de educação não formal podemos citar as ONG’s (Organizações Não Governamentais), as associações de bairro, as atividades desenvolvidas no CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), dentre muitos outros espaços existentes na sociedade.

    Já a educação informal é aquela aprendida nos vários espaços e momentos de convivência, seja ela familiar, cultural e/ou social, fora das instituições escolares, nos diversos espaços de sociabilização do indivíduo. “A informal opera em ambientes espontâneos, onde as relações sociais se desenvolvem segundo gostos, preferências, ou pertencimentos herdados” (GOHN, 2006, p. 3).

    Caracteriza-se então como uma educação que acontece num fluxo que difere-se da educação formal no momento em que parte da comunidade a intencionalidade de seu desenvolvimento. É na comunidade que se estabelecem o que será aprendido e o que será ensinado, de acordo com seus anseios. Acontece para atender a uma demanda previamente estabelecida pelas características em comuns dos indivíduos em seu meio, a partir de suas manifestações e demonstrações de interesse.

    Espaços não-escolares são espaços onde existem o processo educativo diferentemente do modelo formal de educação, que acontece na escola. Espaço não-escolar é o espaço educativo fora dos muros da escola, sendo reconhecido nas ONG’s, nas associações de bairro, nos grupos culturais e/ou religiosos, no CRAS e nos diversos espaços socioeducativos que surgem a todo momento.
    A responsabilidade pela educação hoje não limita-se à escola e aos seus professores, num processo de transmissão de conteúdos pré-definidos. A educação acontece nos diversos espaços onde os indivíduos se interagem e onde há a troca de saberes e o compartilhamento de experiências.

    Vê-se que o objetivo da educação não mais é tão somente a profissionalização para atender a demanda mercadológica, abrindo mão do caráter meramente tecnicista. A educação passou a ser compreendida como responsável pela emancipação dos sujeitos e como caminho para a inserção na vida social. A Constituição Federal de 1988 traz em seu art. 205:

    A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988). Nesse contexto, percebe-se uma inter-relação entre a família, o Estado e a sociedade na formação sócio educacional do indivíduo.

    Ocorrendo omissão ou havendo negligência em uma dessas vertentes em relação à garantia do direito a educação, haverá uma limitação no seu processo de formação sócio educacional, deixando assim de se cumprir os objetivos propostos na Constituição, uma vez que o indivíduo não será plenamente preparado para o exercício da cidadania, sendo a formação educacional pré-requisito para o seu exercício. Essa possível distorção no processo de formação educacional pode promover limitações na qualificação profissional o que por sua vez contribui para a ausência do pleno desenvolvimento do indivíduo.

    Dessa forma, família, Estado e sociedade devem estar estruturadas a fim de garantir aos indivíduos o direito à educação. Não sendo a educação ministrada apenas nas instituições escolares e sendo compreendida como processo de socialização, podendo acontecer nos diversos espaços de interação social, a constituição não especifica a que educação se refere quando delega deveres. A promoção, o incentivo e a colaboração da sociedade podem ampliar essa visão, no momento em que a educação passa a ser desenvolvida nos diversos espaços em que haja interação social.

    Procedimentos Metodológicos
    O intuito de se realizar esta pesquisa originou-se com a graduação em Bacharelado em Serviço Social que faço concomitantemente com a Licenciatura em Pedagogia. Ao iniciar o estágio supervisionado obrigatório num CRAS, pude perceber que, além do caráter assistencial de supressão das adversidades familiares e superação da situação de vulnerabilidade social das famílias referenciadas, o CRAS constitui-se também como um espaço de atividades educacionais.

    O campo empírico foi o município de Macarani, situado na região sudoeste da Bahia, possuindo uma área de 1.376,5 (1.221) km² e que fica a aproximadamente 620 km da capital baiana e a 145 km da cidade de Vitória da Conquista. Sua economia está baseada na pecuária, indústria e comércio. Estima-se que sua população seja de 17.088 habitantes, segundo dados do IBGE de 2010.

    Atualmente, a pecuária de corte e leite e a extração de minérios são as maiores rendas econômicas do município. Macarani possui algumas indústrias que se instalaram na cidade, como uma produtora de calçados e uma indústria de laticínios, que fomentam o comércio local, diversificando a economia e contribuindo para o seu desenvolvimento.

    A abordagem qualitativa foi a metodologia adotada para realização dessa pesquisa, sobre a qual Neves diz que: A pesquisa qualitativa costuma ser direcionada, ao longo de seu desenvolvimento; seu foco de interesse é amplo e dela faz parte a obtenção de dados descritivos mediante contato direto e interativo do pesquisador com a situação objeto de estudo (1996, p. 3).

    Nesse sentido, a pesquisa qualitativa possibilita uma amplitude no que diz respeito às informações coletadas, devido à possibilidade de se estabelecer uma relação interpessoal com o pesquisador e o objeto pesquisado, na qual o pesquisador, na busca pela compreensão dos fenômenos, entra em contato direto com o objeto pesquisado. Através dessa abordagem as informações interagem diretamente com o pesquisador e seus participantes, estabelecendo assim um significado social no universo da pesquisa.

    Tal significado social vem carregado das influências que exerce o pesquisador no objeto de sua pesquisa, pois ao adentrar no seu universo já traz consigo seus interesses e também busca, na coleta de dados, exercitar sua capacidade criativa para poder extrair as informações necessárias à sua pesquisa.

    Severino aponta que todos os trabalhos científicos “têm em comum a necessária procedência de um trabalho de pesquisa e de reflexão que seja pessoal, autônomo, criativo e rigoroso” (2007, p. 214). Discorre assim, no âmbito pessoal, sobre o envolvimento que tem o pesquisador com o seu objeto de investigação, sendo ele envolvido no seu universo a partir de escolhas que envolvem interesses particulares ao pesquisador, não havendo neutralidade em seu trabalho, conferindo assim o “seu sentido político” (SEVERINO, 2007). Envolvido em sua realidade social, o pesquisador demonstra sua intencionalidade quando adentra no universo de sua pesquisa e se inter-relaciona com seus participantes.

    A autonomia na pesquisa se traduz nesse inter-relacionamento com os participantes, reconhecendo e assumindo a relevância da contribuição alheia (SEVERINO, 2007), de forma a enriquecer seus resultados, utilizando-se de sua criatividade no momento da análise para que se possa conseguir extrair dos dados coletados informações pertinentes ao alcance de seus objetivos.

    Essa é uma pesquisa exploratória por ter seu campo de pesquisa delimitado para o levantamento de informações, mapeando as condições de manifestação do objeto pesquisado (SEVERINO, 2007). Sendo feita uma investigação direta no campo com um informante da realidade pesquisada, caracteriza-se como sendo uma pesquisa de levantamento, que segundo Gil “apresenta vantagens como o conhecimento direto da realidade” (1987, p.86).
    Quanto ao método, por não haver rigidez na investigação e por perceber o movimento constante das mudanças sociais e históricas, e por permitir conhecer a realidade por meio da investigação direta, é que caracteriza-se como método dialético, podendo ser considerado, dentre outros aspectos, “como lógica do pensamento aplicada à compreensão do processo histórico das mudanças e dos conflitos sociais e como método de investigação da realidade” (GIL, 1987, p. 31).
    Essa investigação da realidade nos permite compreender a realidade da maneira como se apresenta, sem denotações subjetivas, sendo dialético no momento em que há uma reciprocidade no processo de investigação, tendo a avaliação do pesquisador com o informante sob os aspectos relevantes da realidade observada, na qual tudo se relaciona.

    Os instrumentos de Coleta de Dados
    Para a realização dessa pesquisa foi escolhida como instrumento de coleta de dados a entrevista. Marconi e Lakatos caracterizam a entrevista como “um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional” (2010, p. 178). Com o intuito de conhecer os projetos educacionais existentes no CRAS, a entrevista constitui-se como instrumento de coleta que melhor atende ao objetivo proposto ao permitir que as informações sejam coletadas de forma direta através da comunicação estabelecida entre o pesquisador e o sujeito informante da pesquisa.

    Como informante e facilitadora de acesso às informações necessárias à realização da presente pesquisa, tivemos uma funcionária pública municipal, pedagoga e graduanda em Bacharelado em Serviço Social, que exerce a função de coordenadora da instituição. A investidura no cargo acontece por indicação que estabelece como critérios: ser funcionário público do município, ter graduação em Pedagogia e/ou Serviço Social e já ter trabalhado na instituição no setor administrativo ou na coordenação dos projetos realizados.

    Por ter com o sujeito informante características comuns, tais como a graduação em Pedagogia já concluída pelo sujeito informante e em andamento pela pesquisadora e por estabelecer uma estreita relação com o universo da pesquisa, já que sou graduanda em Serviço Social, assim como o sujeito informante, e percebo o CRAS como possível campo de atuação profissional, foi utilizada a entrevista semiestruturada, pois permite que no decorrer da entrevista as interações entre sujeito da pesquisa e o pesquisador ocorram de forma a permitir que as impressões subjetivas do sujeito da pesquisa apareçam para complementar as informações coletadas. Segundo Gil, a entrevista apresenta vantagens, pois “oferece flexibilidade muito maior, posto que o entrevistador pode esclarecer o significado e adaptar-se mais facilmente às pessoas e às circunstâncias em que se desenvolve a entrevista” (1987, p. 114).

    A escolha da coordenadora como informante se deu pelo fato de ser a coordenação o setor que abrange todas as informações relativas aos objetivos propostos nessa pesquisa. Para sua realização foram feitas visitas ao CRAS uma vez por semana, durante 5 (cinco) semanas, agendadas previamente, na qual a coordenadora atuou como informante, permitindo o acesso aos documentos da instituição para conhecimento e verificação da forma que são desenvolvidos os projetos bem como às informações pertinentes ao CRAS: sua descrição, estrutura organizacional, recursos, caracterização da população, processo decisório e a relação demanda/cobertura do atendimento. Também possibilitou, através das informações fornecidas por meio da entrevista e da análise documental, a identificação dos profissionais responsáveis pela implantação e desenvolvimento dos projetos realizados na instituição.

    Por ser uma pesquisa de campo, “o objeto/fonte é abordado em seu meio ambiente próprio. A coleta de dados é feita nas condições naturais em que os fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente observados e sem manuseio por parte do pesquisador” (SEVERINO, 2007, 123). Dessa forma, impede-se a manipulação dos resultados e obtém-se informações referentes à realidade observada.
    Além das informações relativas ao funcionamento da instituição, foi possível também conhecer os projetos educacionais desenvolvidos pelo CRAS a fim de se verificar como são desenvolvidos e a quem se destinam. Assim, foi possível fazer a coleta de dados necessária à sua realização.

    Análise dos Dados
    O Cras
    A instituição campo de pesquisa foi um Centro de Referência em Assistência Social– CRAS – uma unidade pública estatal descentralizada da política de assistência social, responsável pela organização e oferta de serviços da proteção social básica do Sistema Único de Assistência Social – SUAS – nas áreas de vulnerabilidade e risco social dos municípios. Dada a capilaridade nos territórios, se caracteriza como a principal porta de entrada do SUAS, ou seja, é uma unidade que possibilita o acesso de um grande número de famílias à rede de proteção social.

    Esta unidade pública do SUAS é referência para o desenvolvimento de todos os serviços socioassistenciais de proteção básica do Sistema Único de Assistência Social – SUAS -, no seu território de abrangência. Estes serviços, de caráter preventivo, protetivo e proativo, podem ser ofertados diretamente no CRAS, desde que disponha de espaço físico e equipe compatível.

    Quando desenvolvidos no território do CRAS, por outra unidade pública ou entidade de assistência social privada sem fins lucrativos, devem ser obrigatoriamente a ele referenciados.
    A Proteção Social Básica é um dos eixos da estratégia de atuação do governo que, por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, objetiva prevenir situações de risco, sendo destinada à população que se encontra fragilizada pelos vínculos afetivos, pela situação de pobreza e/ou pela ausência de acesso precário ou nulo aos serviços públicos.

    O desenvolvimento de serviços, programas, projetos de acolhimento, convivência e socialização das famílias identificadas com situação de vulnerabilidade, são competências da Proteção Social Básica.
    O CRAS é, assim, uma unidade da rede sócio assistencial de proteção básica que se diferencia das demais, pois além da oferta de serviços e ações, possui as funções exclusivas de oferta pública do trabalho social com famílias do Programa de Atenção Integral à Família – PAIF – e de gestão territorial da rede sócio assistencial de Proteção Social Básica. Esta última função demanda do CRAS um adequado conhecimento do território, a organização a articulação das unidades da rede sócio assistencial a ele referenciadas e o gerenciamento a acompanhamento dos usuários no SUAS. O funcionamento do CRAS vincula-se estritamente ao funcionamento (implementação) do PAIF, co-financiado ou não pelo governo federal.

    O CRAS desenvolve atividades no intuito de promover a transformação da realidade social, de modo que as famílias possam se desvincular da assistência para a independência em suas atividades de manutenção da estrutura familiar.

    Estrutura Organizacional
    O Centro de Referência em Assistência Social, que foi a instituição campo de pesquisa, está localizado à Rua Encruzilhada, s/n, no Centro da cidade de Macarani – Bahia. Quanto a sua localização, o CRAS não se encontra em local apropriado, pois o CRAS deve ser instalado no espaço territorial onde haja situações de vulnerabilidade social1, o que não é o caso do centro da cidade. Foi justificado o fato de o município não dispor de local adequado para sua implantação nos territórios, e que já está em processo de desenvolvimento e implantação do CRAS Móvel, na qual os serviços de referenciamento familiar e acompanhamento poderão ser ofertados diretamente nos territórios onde há famílias em situações de vulnerabilidade social.

    Estão à frente da gestão da instituição:
    – uma assistente social, devidamente registrada em órgão correspondente;
    – uma pedagoga coordenadora do CRAS;
    – uma pedagoga coordenadora do PROJOVEM;
    – dois psicólogos, devidamente registrados em órgão correspondente;
    – seis monitores que atuam no desenvolvimento dos projetos;
    – uma auxiliar administrativa.

    É uma instituição com ótima estrutura física, dispondo de amplo espaço para realização das atividades desenvolvidas, bem como para atuação de seus responsáveis no atendimento aos usuários.

    O conceito de vulnerabilidade social está relacionado a pessoas em situações de pobreza extrema, exclusão social, desnutrição, condições precárias de moradia e saneamento, desemprego e abandono familiar.

    Recursos Financeiros
    O CRAS é financiado pelo governo federal em parceria com a prefeitura municipal.

    Caracterização da População
    No CRAS (instituição campo de estágio) tem um total de 3.200 famílias referenciadas. Todas estas famílias se encontram em situação de risco e/ou vulnerabilidade social. A maioria das famílias tem a mãe como responsável pelo sustento da família.

    É uma população extremamente variada em relação à quantidade de membros, porém, todas as famílias convivem num espaço onde suas necessidades primeiras devem ser atendidas e compreendidas como sendo particulares a cada uma delas. Assim, “os modelos de estrutura familiar são denominados por características peculiares e se desenvolvem historicamente, demarcando as suas estruturações, funções, relações, valores e papéis que vão delinear sua evolução” (GONÇALVES, et all 2010, p.146).

    Desta forma, cada família se apresenta e se representa na sociedade de acordo com as particularidades internas que, juntamente com as transformações ocorridas em sociedade, também se transformam. A estrutura familiar do século XXI, que tem também a mulher como responsável pela subsistência, difere-se do século passado quando a mulher tinha seu espaço restringido às tarefas domésticas.

    Os valores hoje transmitidos não compartilham dos mesmos ideais de décadas atrás. São essas características que determinam cada modelo familiar e, na pluralidade de sua formação, que influencia e é influenciada por fatores externos a ela, as famílias compartilham de anseios comuns quando buscam em espaços como o CRAS a supressão de suas dificuldades e sua adequação social.

    Nos bairros de cobertura do CRAS são encontradas famílias em situações de pobreza, baixo nível de escolaridade por parte dos adultos e índices de violência e desemprego. Encontramos também famílias com suas moradias sem condições de higiene, o que interfere na saúde e no bem estar dos seus membros. Muitas famílias não fazem uso de água filtrada. Sobrevivem dos auxílios de programas governamentais (Bolsa Família) e muitas delas parecem não ter perspectivas de melhorias em suas condições financeiras.

    O trabalho desenvolvido no CRAS vem justamente tentar romper com esse paradigma e fazer com que os usuários possam perceber que é possível superar as adversidades e alcançar padrões de sobrevivência dignos e distantes do risco social.

    Processo Decisório
    As tomadas de decisões são feitas em conjunto. Os coordenadores, a assistente social e os psicólogos estabelecem um plano de ação e buscam, em atividades que englobem todos os envolvidos, atender à demanda dos usuários na busca pela superação de suas necessidades, sempre em conformidade com os objetivos institucionais e com respaldo financeiro do órgão público responsável, atento à realidade territorial. Segundo Braun e Kernkamp, “conhecer o território não é apenas conhecer onde, mas o que define a estrutura de certo lugar, contemplando o máximo sobre as relações sociais que se travam nestes espaços” (2010, p. 19).

    O conhecimento do território abrange não só os aspectos físicos e dimensionais, mas toda a subjetividade existente nesse espaço através da compreensão de seus atores sociais e, intrinsicamente, das suas relações.
    Relação Demanda / Cobertura do Atendimento
    O atendimento às famílias é feito diariamente, exceto nos dias de visita domiciliar, e tem-se conseguido estabelecer uma relação de reciprocidade com os usuários no que diz respeito ao atendimento de seus anseios.

    O CRAS materializa a presença do Estado no território, possibilitando a democratização do acesso aos direitos sócia assistenciais e contribuindo para o fortalecimento da cidadania.

    Natureza dos Programas e Projetos
    Com a pesquisa foi possível conhecer os diversos projetos desenvolvidos no CRAS em sua totalidade, seus objetivos e metodologia, bem como a quem se destinam. São eles:
    – Projeto Coral da Melhor Idade: objetiva contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas da terceira idade. Constitui-se de atividades que preparam as vozes dos participantes para o canto no coral. É um trabalho gradativo que requer acompanhamento contínuo, uma vez que este processo permeia vários aspectos da formação eficaz do conjunto vocal. Tem como justificativa os benefícios atribuídos a Terceira Idade a partir das atividades musicais, tais como aumento da autoestima e autoconfiança, melhora de sua memória, de sua capacidade cognitiva, de concentração e reforço de habilidades. O trabalho em grupo possibilita o desenvolvimento da comunicação e das relações sociais.

    – Projeto Ginástica da Melhor Idade: tem como objetivo promover encontros com idosos que possuem o Benefício de Prestação Continuada – BPC2 – ou que são beneficiárias do Programa Bolsa Família – PBF -, bem como os que não recebem nenhum benefício, a fim de fortalecer os vínculos familiares e comunitários, a autoestima, a autonomia, a integração e sua participação efetiva na sociedade, além de atividades físicas adequadas que visam fortalecer a musculatura, melhorar a sinergia motora, a velocidade de andar, a mobilidade, a flexibilidade e diminuir o risco de doenças cardiovasculares. É oferecido quatro dias por semana e tem em torno de 100 idosos participantes.

    – Projeto Futebol com a Moçada: objetiva incluir as crianças das famílias referenciadas à atividade esportiva, desenvolvendo condições ideais para treinar a habilidades das crianças, melhorando a coordenação motora e o desenvolvimento físico com um todo. Com a prática do esporte é possível deixa-los afastados das drogas, da violência e do álcool, promovendo também a socialização. É desenvolvido duas vezes por semana, no ginásio de esportes do município que fica próximo à localidade do CRAS, e tem 150 crianças cadastradas e participantes.

    O BPC – Benefício de Prestação Continuada – é um benefício individual, não vitalício e intransferível, que assegura a transferência mensal de 1 (um) salário mínimo ao idoso, com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais, e à pessoa com deficiência, de qualquer idade, com impedimento de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena ou efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2011).

    – Projeto Teatro Infantil: nesse projeto o desenvolvimento da linguagem corporal e oral das crianças são objetivos primordiais, como também a ampliação da cultura e o amplo desenvolvimento dos demais aspectos de socialização. Funciona duas vezes por semana e tem 50 crianças cadastradas e participantes. Dentre as atividades, há a saída do núcleo (CRAS) para conhecer/visitar os pontos turísticos da cidade. Para efetuar o cadastro da criança, o pai/mãe ou responsável vem até o CRAS para matriculá-lo. São desenvolvidas reuniões periódicas para dar um retorno às famílias quanto ao desenvolvimento das crianças.

    – Projeto Voz e Violão: este projeto tem uma característica diferenciada dos demais, que tem um público específico. Nesse projeto podem participar desde crianças até idosos, e o objetivo é oferecer aulas de canto e de violão a todos os interessados. É desenvolvido uma vez na semana, e tem 50 participantes.

    – Projeto Projovem Adolescente: O projeto Projovem Adolescente, que objetiva a capacitação do jovem adolescente para o mercado de trabalho, é um projeto do Governo Federal e destina-se a jovens entre 15 e 17 anos, sendo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS – o responsável pela execução e gestão deste programa.
    De acordo com a Lei 11.692/08, o Projovem Adolescente destina-se aos jovens de quinze a dezessete anos:

    I – pertencentes à família beneficiária do Programa Bolsa Família – PBF -, instituído pela Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004;
    II – egressos de medida socioeducativa de internação ou estejam em cumprimento de outras medidas socioeducativas em meio aberto, conforme disposto na Lei 8.069, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA;
    III – em cumprimento ou sejam egressos de medida de proteção, conforme disposto na Lei nº 8.069, de 1990;
    IV – egressos do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI; ou V – egressos ou vinculados a programas de combate à violência, ao abuso e à exploração sexual.
    28
    § 1° Os jovens a que se referem os incisos II a V devem ser encaminhados ao Projovem Adolescente – Serviço Socioeducativo pelos programas e serviços especializados de assistência social do município ou do Distrito Federal, ou pelo gestor de assistência social, quando demandado oficialmente por Conselho Tutelar, Defensoria Pública, Ministério Público ou pelo Poder Judiciário.

    Se o jovem completar 18 anos durante a execução das atividades, poderá continuar no Projovem Adolescente até completar o Ciclo que estiver incluído (I ou II). O Projovem funciona três vezes por semana, e tem em torno de 60 jovens cadastrados participando do projeto.
    No CRAS são desenvolvidos também Cursos de Geração de Renda para que as famílias afetadas pelo desemprego possam ter oportunidades de transformar sua situação de vulnerabilidade social para condições mais favoráveis à sua subsistência, proporcionando capacitação profissional e inserção das pessoas ao mercado de trabalho.

    Os cursos oferecidos são:
    – Manicure e Pedicure;
    – Cabeleireira;
    – Pintura em Tecido e
    – Patchwork.

    Analisando os Projetos
    O Projovem Adolescente, projeto desenvolvido na instituição, se caracteriza pelo objetivo de promover aos jovens das famílias usuárias do CRAS novas perspectivas a respeito de sua vida cotidiana. Ao adentrar num espaço de socialização e de superação de adversidades, o jovem participante do projeto pode vislumbrar uma transformação de sua realidade que contemple a superação do risco e da falta de oportunidades impostos pela sociedade neoliberalista.

    Por se tratarem de famílias com altos índices de vulnerabilidade social, tais jovens se permitem perceber que é possível adquirir melhores condições de vida e sobrevivência a partir do aprendizado compartilhado com a equipe e com seus colegas de projeto. Cada indivíduo tem uma história particular e essa compreensão permite que a troca de saberes possa contribuir para uma efetiva mudança em sua realidade familiar.

    A assistência social compreende a família como um espaço contraditório, marcado por tensões, conflitos, desigualdades e, até mesmo, violência. Essa compreensão busca superar a concepção tradicional de família, o modelo padrão, a unidade homogênea idealizada e acompanhar a evolução do seu conceito, reconhecendo que existem arranjos distintos, em constante movimento, transformação (BRASIL, 2009).

    Os projetos “Coral da Melhor Idade” e “Ginástica da Melhor Idade” se caracterizam por proporcionar a interação social dos participantes, promovendo o desenvolvimento físico e fortalecendo a autoestima, fazendo com que os laços comunitários se estreitem assim como permitem ampliar a percepção da importância da convivência em grupo para a manutenção do equilíbrio social.

    Ao chegarem na terceira idade, muitas pessoas são afetadas pelo descaso familiar e social, pois nesse momento da vida, quando o vigor e a força física começam a dar sinais de exaustão, muitos idosos entram num processo depressivo, pois a percepção que se tem é que já não são mais úteis, não são mais solicitados a atuar com outros grupos, ficando seu universo restrito à tarefas simples domésticas, sem perspectivas.

    Os projetos fazem com que esse público perceba que a fase da vida em que se encontram pode ser tão produtiva como qualquer outra que já tenham passado. Esse sentimento de pertença a um grupo e a sensação de que muito ainda podem fazer contribui para que a qualidade de vida desse público específico melhore substantivamente.

    Os projetos “Futebol com a Moçada” e “Teatro Infantil”, além de promover o desenvolvimento físico e cognitivo, a expressão corporal e a socialização, ainda mantém as crianças afastadas das drogas e da criminalidade, pois a prática esportiva e a produção artística são alternativas eficazes uma vez que se estabelece um compromisso com os encontros dos projetos, na qual a frequência e o interesse em participar das atividades demonstra a relevância que as atividades desenvolvidas têm na vida das crianças usuárias.

    Estando as crianças envolvidas com atividades que de fato contribuam para o seu desenvolvimento, como a prática de esporte e as atividades teatrais não sobram espaço para que essas crianças se envolvam em atividades que as conduziriam à criminalidade, pois não se trata apenas do ensinar futebol ou artes cênicas.

    Nos projetos se desenvolvem também palestras sobre as drogas, buscando orientá-las em relação às consequências advindas de seu uso, os malefícios trazidos à saúde, a destruição que o uso de drogas e as atividades criminais fazem na vida das pessoas. Busca-se também transmitir valores como responsabilidade e respeito ao próximo, o que determina a forma como as crianças percebem o mundo ao seu redor. O acompanhamento da família é item primordial para o bom desempenho da criança nas atividades realizadas.

    O Projeto “Voz e Violão” é um dos mais interessantes por não haver, para sua execução, a definição de um público específico, separado por faixa etária. Todos os usuários do CRAS e também todos aqueles que não são usuários e que desejam participar das aulas de violão e canto podem se inscrever e se permitir conviver e aprender juntamente com pessoas de várias idades e interesses distintos, tendo em comum o desejo de aprender tocar violão e de poder cantar junto com sua melodia. Essa proposta possibilita a convivência mútua de vários grupos, pertencentes a uma mesma comunidade, que na busca por interesses comuns dividem espaço, atentando para as particularidades de cada um e respeitando as diferenças.

    Os cursos de capacitação profissional oferecidos pelo CRAS também se constituem como porta de entrada das pessoas no mercado de trabalho. Dessa forma, sua participação na sociedade se efetiva ao mesmo tempo em que buscam a superação de suas adversidades e da situação de vulnerabilidade. A aprendizagem de uma profissão, além de proporcionar o acesso ao mercado de trabalho, também faz com que essas pessoas sintam-se valorizadas no momento em que podem provir o sustento de suas famílias, adquirindo assim sua independência financeira por meio de seu próprio trabalho.

    Todos esses projetos desenvolvidos pelo CRAS têm em comum o fator “transformação” como matriz de suas ações. Os projetos procuram transformar a realidade começando seu processo a partir da compreensão que os usuários devem ter da necessidade de transformação de sua realidade. A percepção de que precisam transformar sua realidade, estimulando-os a buscar alternativas para que essa mudança aconteça, partindo da aceitação de que a mudança é necessária.

    É quando a reflexão produz a ação. Freire diz que “não pode haver reflexão e ação fora da relação homem – realidade” (1979, p.17), não podendo o homem agir sobre sua realidade sem antes refletir sobre a sua ação enquanto homem capaz de transformá-la. Essa relação homem – realidade é que faz com que a reflexão sobre o seu agir no mundo, para transformação de sua realidade, aconteça.
    Nesse sentido, os projetos desenvolvidos pelo CRAS têm um caráter incentivador da reflexão do homem sobre a sua realidade, no momento em que proporciona aos seus usuários a compreensão de que é necessária uma transformação nas suas condições de vida, saindo de uma situação de vulnerabilidade social. Esses projetos vêm justamente fazer com que as famílias cadastradas usuárias dos serviços percebam a suas necessidades e, a partir daí, possam buscar formas de atuação que as façam transformar a sua realidade.

    Podemos extrair dessas análises que todos os projetos desenvolvidos no CRAS de Macarani são propostas educacionais. Demo diz que “a educação é o fator mais decisivo do desenvolvimento, desde que este se defina pela marca humana e a concepção seja de teor estratégico e interdisciplinar” (1999, p. 63).

    Se os projetos desenvolvidos no CRAS de Macarani buscam o desenvolvimento das famílias referenciadas, sendo a educação a responsável por incitar no homem a reflexão sobre seu próprio desenvolvimento para, a partir daí efetuar ações sobre sua realidade, podemos concluir que o CRAS desenvolve propostas educacionais que buscam a emancipação do sujeito, iniciando com a reflexão acerca de sua realidade e da necessidade de transformação, o que por sua vez impulsiona a ação.

    “Quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com o seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias” (FREIRE, 1979, p.30). É nessa busca por soluções que os projetos desenvolvidos no CRAS, independente do público ao qual esteja voltado, fortalece os vínculos entre homem e sociedade e a concepção de que é a ação do homem que transforma o mundo e que por sua vez o transforma, numa relação intermitente entre homem e realidade.

    Por serem realizadas em espaços não escolares, as propostas do CRAS não perdem o seu caráter educacional por não estarem inseridas nos padrões formais de educação. Os espaços não escolares também se constituem como espaços de desenvolvimento educacional, pois, como já explicitado anteriormente, a educação acontece nos diversos espaços onde haja interação entre educador e educando, não sendo designada somente aos espaços formais e/ou às instituições escolares.

    O Pedagogo em Espaços Não Escolares: Perfil e Atuação
    Na implementação dos projetos, estão pedagogos e profissionais de nível médio, atuando conjuntamente para que o processo educativo aconteça. No CRAS os pedagogos atuam na coordenação, sendo uma coordenadora do CRAS e uma coordenadora do Projovem Adolescente. Os profissionais de nível superior, num total de seis, atuam diretamente monitorando e desenvolvendo os projetos juntamente com os usuários.

    Os monitores recebem cursos de capacitação para melhor compreenderem a dinâmica institucional e o público a ser atendido. Os psicólogos fazem o acompanhamento das famílias através de atividades sócio educacionais grupais, articuladas com a equipe multidisciplinar atuante na instituição, observando as necessidades de superação do risco e da situação de vulnerabilidade social.

    Os pedagogos, nesse novo campo de atuação, demonstram o caráter multifacetado da profissão, que ultrapassa a atividade docente por entre os muros escolares e que não se resume à relação educador-educando. A ação pedagógica deve direcionar-se à emancipação dos sujeitos nos diversos espaços de interação social e a atuação do pedagogo nessas situações deve demonstrar sua intencionalidade ao adentrar nesses espaços em busca de desenvolver a sua atuação.

    Os cursos de pedagogia já se adequam à essa nova realidade quando incorporam em sua matriz curricular disciplinas onde o estágio em empresas permite que o pedagogo em formação experiência novas alternativas de atuação profissional que não se restringem à ação docente. O estágio em empresas proporciona uma expansão do campo de atuação do pedagogo e da concepção, historicamente construída, na qual a pedagogia limita-se à docência.

    Não limitando-se à atuação em salas de aula, o pedagogo encontra nesse universo novas vertentes de sua atuação e novas experiências práticas profissionais. Uma atuação mais abrangente, mas que ainda necessita de especificidade quando no momento de formação e construção identitária, pois o pedagogo ainda busca a expansão de sua prática a partir da intencionalidade de sua atuação.

    A transformação da realidade, com a superação dos conflitos, a partir da formação da consciência crítico-reflexiva do cidadão que culmina com a ação do homem sobre o seu meio, é uma das muitas intervenções possíveis do pedagogo nesses espaços educativos.

    Considerações Finais
    Com as mudanças ocorridas na sociedade em função das transformações econômicas, sociais, políticas e culturais, que reestruturam os conceitos já estabelecidos e os refazem de modo a atender às novas implicações, fica a educação também afetada por toda essa torrente de manifestações.

    A educação tal qual se configura hoje também se transfigura ao passo em que busca dentro de seu histórico a construção de sua identidade. Observamos que o ato educativo não se limita às instituições escolares. Antes acontece nas relações sociais, desde a família até os laços comunitários. Pensar a educação hoje implica pensar em formas de transformação social, por meio da compreensão de que é em sociedade que a educação acontece.

    A partir do momento em que essa compreensão se estabelecer, de que a educação não se limita aos muros escolares e que é através dela que o sujeito pode se perceber enquanto um ser social, teremos uma sociedade em que a emancipação do sujeito e o desenvolvimento de sua consciência crítico-reflexiva não serão mais discursos teóricos com provisões futuras. Teremos de fato uma sociedade em que a reflexão e a ação do homem na transformação de sua realidade acontecem de maneira natural, autônoma.
    Assim, esta pesquisa identificou sete projetos sociais desenvolvidos no CRAS do município de Macarani- BA que são também projetos educacionais. Estes tem um caráter coletivo e de interação entre as pessoas. Estes projetos são diversificados, abrangem diferentes idades e diferentes públicos. Tem para sua execução uma equipe de 12 profissionais da área de assistência psicossocial, educacional e administrativa.

    Dessa forma, conclui-se que a educação em espaços não escolares, a educação caracterizada como não formal, desempenha um papel tão significativo quanto a educação formal no processo de construção de uma pedagogia que tenha seu papel esclarecido, desde a formação profissional até os campos de atuação que irá culminar com novas perspectivas e novas práticas profissionais, contribuindo assim para o processo de construção de uma sociedade menos desigual, na qual a mudança da percepção dos sujeitos será também a mudança em sua estrutura social.

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