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Na semana passada, escrevi que o novo estudo do economista francês Thomas Piketty comprova que a desigualdade de renda no Brasil não cedia, apesar da rede de proteção social aos mais pobres implementadas nos governos petistas. Agora, outra péssima notícia. A fome vem aumentando no mundo, inclusive no Brasil.
RELATÓRIO da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), divulgado recentemente, mostra que 11% da população da população mundial passa fome. E o pior: após declinar por mais de uma década, o número de pessoas com fome no mundo está aumentando.
SEGUNDO o estudo, em 2016, a fome afetou 815 milhões de pessoas em todo o mundo; em 2015 havia 777 milhões nessa situação. Ou seja, em um ano, mais 38 milhões de seres humanos foram atirados nessa condição abjeta. Esse percentual, 11% da população mundial que passa fome, equivale ao número de habitantes dos Estados Unidos e o da União Europeia somados.
O AUMENTO da fome não se verificou apenas em países em conflito armado ou devido às consequências das mudanças climáticas, mas também voltou a crescer na América do Sul, região que vinha sendo apontada como exemplar na erradicação do problema. O diretor-geral da FAO, José Graziano, criticou os “governos sul-americanos” que cortam programas de proteção social para resolver problemas fiscais.
GRAZIANO não cita diretamente o Brasil, mas um documento encaminhado à ONU por 40 entidades da sociedade civil, nacionais e internacionais, alerta sobre o risco de o País voltar a ser incluído no Mapa da Fome, do qual saiu em 2014. O Mapa da Fome lista os países em que mais de 5% da população sofre de desnutrição. No Brasil a fome atingia 4,5% da população no período 2004-2006, taxa reduzida para 2,5% nos anos 2014-2016. Essas entidades são responsáveis por monitorar o cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, cujo objetivo é acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até o ano de 2030.
GRAZIANO lembra que países da América do Sul criaram redes de apoio social às populações pobres no período de crescimento econômico. No entanto, quando a crise econômica se abateu sobre esses países, uma das medidas foi reduzir recursos para as políticas de complementação de renda.
SEGUNDO GRAZIANO, “era para ter feito o contrário”, ou seja, aumentar recursos para as áreas sociais, pois o peso das crises econômicas atingem mais fortemente os pobres. No entanto, em nome do “ajuste fiscal”, essas redes de proteção estão sendo desmontadas.
ESTE ANO, o governo federal brasileiro resolveu cruzar várias informações com o objetivo de passar um “pente fino” no Bolsa Família. O resultado é que 543 mil benefícios foram cancelados, supostamente porque essas pessoas não mais se enquadravam nas regras do programa.
MAS O GOVERNO teve uma surpresa: encontrou mais de 1,5 milhão de famílias que tinham renda menor do que a declarada e, por isso, teriam de receber benefícios maiores. São beneficiários que haviam perdido o emprego, mas deixaram de atualizar o cadastro. Além disso, meio milhão de pessoas necessitadas estão na fila para entrar no programa, sem previsão de quando terão acesso.
 

EM UMA SOCIEDADE justa, a primeira providência quando a crise se abate sobre ela é proteger os mais frágeis. No entanto, em tempos de um “liberalismo” canhestro, faz-se justamente o inverso: os pobres são os primeiros a serem chamados para a pagar a conta. Enquanto isso, milhões de seres humanos são considerados descartáveis, sacrificados no altar do deus-mercado.
Má nutrição
O estudo da ONU também alerta para “as múltiplas formas de má nutrição” que ameaçam a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo. A propósito, o jornal americano New York Times publicou recentemente matéria mostrando como a grande indústria “viciou” o Brasil em comida rica em caloria e de baixa qualidade nutritiva. Fortaleza é um dos exemplos.

Graziano
 

José Graziano, diretor da FAO, foi ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome no primeiro governo do presidente Lula, participando da criação do programa Fome Zero.

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