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    Campus ou Câmpus?

     

    Entre nós, é ampla a área de dúvidas, de contradições ou de conflitos. A toda hora vêm à tona questões deste tipo: ensinar ou não ensinar gramática? Que gramática ensinar? Que norma adotar, uma norma idealizada ou uma norma real, derivada dos usos reais da língua? Estabelecer barreiras alfandegárias à importação de palavras estrangeiras ou ver no fenômeno algo natural, próprio da natureza e da história das línguas? Aportuguesar as palavras estrangeiras ou não? Colocar acento circunflexo em “campus” (“câmpus”)? Etc.

    De um modo geral, gramáticos, professores e aqueles que têm mostrado a outros como falar, como escrever, têm feito isso numa base meramente normativista, insistindo para que os utentes da língua sigam as regras. Não raro apelam para a lógica, para o peso da tradição e, às vezes, para o peso de sua própria recomendação ou autoridade. Com isso, estão muito longe de basearem suas conclusões na observação acurada, exata, objetiva dos fatos lingüísticos. Importa ressaltar que, antes de emitirmos parecer ou opinião acerca de uma questão lingüística, devemos sempre ter outros fatos necessários ao nosso dispor e compreender como trabalhá-los, organizando-os e interpretando-os cientificamente, verificando sempre o que a ciência lingüística tem a nos dizer. Caso contrário, nossa pretensa solução ou resposta ao problema não passa de uma simples conjectura ou expressão subjetiva de nossa preferência.

    As questões linguísticas não se resolvem, pois, em princípio, mediante a consulta ou a citação de gramáticos ou dicionaristas, a cujos registros se confere “status” de lei ou regra. Se autoridade têm, é simplesmente porque se restringem à tarefa de observar, pesquisar e anotar os usos vigentes na comunidade lingüística. Fácil de ver, então, que a autoridade são sempre os fatos lingüíisticos, os usos, a realidade, as tendências lingüísticas, a deriva de Sapir.

    A observação atenta da realidade linguística – condição primeira, como dissemos, de todo trabalho sobre língua – permitiria, seguramente, classificar os fatos ou usos, no caso, da linguagem culta formal, de acordo com a seguinte ordem:

    1. muitos estão firmemente estabelecidos, não havendo, pois, hesitações, alternativas ou discordâncias entre os usuários da língua, ou, entre professores e / ou gramáticos;
    2. outros estão em variação livre, oferecendo a lingua alternativas ou soluções diversas de emprego;
    3. alguns, finalmente, são de baixíssima ocorrência: ou são verdadeiros arcaísmos ou quase, ou são inovações recentíssimas.

    Essa maneira de ver os fatos pode-se aplicar, com alguma modificação, ao aportuguesamento de palavras. Com efeito:

    1. há muito um número significativo de palavras estrangeiras se acomodou ao gênio de nossa língua: abajur (fr: abat-jour), espaguete (it: spaghetti), réquiem (lat:requiem), vade-mécum (lat:vade mecum), drinque (ingl: drink), múnus ( lat: munus), ônus (lat: onus), quiosque (tur: kioxk), kyrie, eleison (gr: quirielêison), memorando (lat: memorandum), etc.
    2. num passado mais recente, outra leva de palavras estrangeiras ganhou foros de cidadania, com roupagem portuguesa, conforme se pode atestar confrontando-se o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) e a “lista de estrangeirismos já aportuguesados”, publicada por Celso Luft em seu Guia Ortográfico (Porto Alegre, Globo, 1973); sirvam de exemplo os seguintes casos: biquíni/biquine (ingl: bikini), boate (fr: boîte), brevê (fr: brevet), cachê (fr: cachet), camelô (fr: camelot), náicron (ingl: nycron), náilon (ingl: nylon), pierrô (fr: pierrot), referendo (lat: referendum), escrete (ingl: scratch), para citar alguns;
    3. mais recentemente, generalizou-se a grafia de “plugue”, “trupe”, “eslaide”, “teipe”, entre tantos outros exemplos que poderiam ser citados;
    4. no momento presente, há variação ou hesitação quanto ao emprego de “stress/stresse”, “lobby/lóbi”, “standard/estândar”, “slogan/eslogã”, “habitat/hábitat(s)”, “gangster/gângster”, etc.É nesse grupo que se encontra a palavra “campus/câmpus”.

    Disse-o bem o Prof. Cláudio Moreno:

    “Essa é uma daquelas palavras mutantes, que se encontra numa espécie de limbo entre o Latim e o Português. Alguns a usam no latim, dando-lhe a grafia e a flexão latina: o campus / os campi; outros já a tornaram nossa, grafando-a como outros vocábulos latinos similares (ônus, ângelus, éctus, múnus, tônus, etc.) – já dentro de nosso sistema flexional e ortográfico.”

    O “limbo” a que se refere Cláudio Moreno é um dos estágios em que permanecem as palavras estrangeiras antes do aportuguesamento definitivo.

    Eis, pois, que nada impede a que se grafe “Câmpus Universitário II – PUCRS” (os câmpus universitários), embora o circunflexo possa ferir os olhos de muitos gramáticos, professores e utentes da língua. “Os cães ladram e a caravana passa” repetia o superno e saudoso Mestre Luft, referindo-se aos usos que se instauraram na língua, malgrado a reação de muito gramático, dicionarista e professor de Português. Provavelmente nossos bisavós também torceram o nariz quando viram, pela primeira vez, a forma aportuguesada “espaguete” (it: spaghetti). Depois, acostumaram.

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